Os dias contados do Buzz

O Buzz foi um presente inesperado. Deu-me dores de barriga, ansiedades várias. Fez-me questionar se estaria à altura para falar na rádio – um meio tão sério! De respeito! -, eu que sou tão atabalhoada a expressar ideias, que me perco em devaneios, que posso falar sem parar sem dizer nada de importante.
Morou em vários horários, teve vários interlocutores de peso na Antena3. Uns davam-lhe muita atenção, outros faziam as suas vidas nesses dois minutos de muita intensidade radiofónica, arrancada do online por um bocadinho.

O online pode ser cruel. Melhor, o online é cruel. A rádio é doce e contemplativa.
Quantos buzz’s dei com os quais não concordava. Quanta atenção se deu e se dá a notícias que não importam, que não significam, que não têm sumo nenhum.
Criei sumo (tentava). Expliquei por que não concordava (mesmo que não fosse isso o que me era pedido). Achei que ninguém ouvia, às vezes. Recebi sugestões, tweets, mensagens de amigos que gostavam de ouvir a minha voz a meio da tarde, inesperadamente. Havia sim alguém a ouvir; (h)ouve sempre.
Tive dias em que não havia assunto. Buzz’s praticamente inventados em cima do joelho. Os que tive de gravar nunca me saíram tão bem. Gosto dessa comunicação com quem estivesse do outro lado do ecrã do estúdio; mesmo que distraído.
Foram mais dias do que os que me lembro a sentar-me à frente daquele microfone e a sorrir para quem não me via. A dar a voz ao meu corpo e não o contrário.

E foi bom.

IMG_0347

O Buzz nasceu num formato particular, de reação à realidade. Pouco a pouco, o mundo em que vivemos tornou-se, todo ele, isso mesmo.
Talvez seja por isso que sinto que é tempo de sair para a rua e procurar novos buzz’s: aqueles que saiam de mim. Mais positivos, talvez. Menos imediatos talvez. Mais interessantes, espero.

O Buzz vai de férias por tempo indeterminado no final desta semana.

Obrigada Ricardo Tomé. Ao JAL, ao Rui Pêgo. Ao Luís Oliveira, ao Tiago Ribeiro, à Raquel Bulha, à Ana Galvão, ao Rui Estevão, à Joana Marques e à Joana Dias. Ao Nuno Reis.
Aos que se encheram de paciência para me ouvir quando refilei.
À Antena3.
I’ll be back.

Advertisements

Os “bairros marginais” têm milhares de visualizações no YouTube

Os bairros críticos/marginais/perigosos são uma parte do desenho de Lisboa que tentamos ignorar. Estão à margem de nós, são uma outra vida, vivida em guetos, deslocada do nosso quotidiano. Têm etnias e cores diferentes, cheiros diferentes, têm mais gente do que aquela que vem nos censos. Têm mais vida também e mais música. E as culturas que aí moram são incompreensíveis para nós que vivemos fora deles, os dialectos assustam-nos, os olhares também.

rap

A minha irmã trabalhou numa escola num desses bairros, a dar aulas de inglês a miúdos de 2.º e 4.º anos. Miúdos sobretudo de etnia cigana, que se pegavam com a minoria negra por razão nenhuma, possivelmente porque a cor os torna distantes. Gritavam uns com os outros e batiam-se, cuspiam ofensas, palavrões maiores do que a sua compreensão das palavras mais banais (como ‘por favor’ ou ‘obrigado’), num vernáculo absurdamente chocante.

A bem da verdade, o inglês quase nunca existiu entre eles. Ela era o elemento agregador que os miúdos precisavam para se manterem numa sala de aula durante uma hora, mas pouco mais. Ela voltava com a cabeça em água, depois de passar tempo demais a tentar ensiná-los sobre as noções de respeito pelo próximo e concentração.

Quando queria conquistá-los, dizia que podiam escolher a música que queriam ouvir no final da aula, se se portassem bem. E eles acatavam, entusiasmados, mesmo que ainda mandassem bitaites ressabiados que garantiam – questionando sem questionar – que as professoras nunca cumpriam o que prometiam. Ela cumpria.

É preciso explicar que a minha irmã adora e ouve hip hop e rap português. Vai a concertos, conhece o background dos rappers, sabe as letras, os videoclips. E até ela ficava impressionada quando as músicas que escolhiam aqueles miúdos de 7 ou 9 anos falavam de violência, mostravam violência… e somavam milhares de visualizações.
Explicou-me ela na altura que o hip hop português que não figura nas tabelas de mais vendidos da Fnac tem uma legião de fãs avassaladora. Fui investigar. E é mesmo verdade.
E não falo desse hip hop violento de que os miúdos tanto gostavam mas do hip hop amador que tem histórias para contar. Que fala de vidas que eu não conheço.

É precisamente sobre este fenómeno que fala esta palestra do TEDx, pela voz de António Brito Guterres empenhado em fazer ver à sociedade em geral os impactos sociais e culturais das políticas de realojamento. Vale muito a pena ver.

 

#NOSAlive: a comentar é que eu estou bem

Este ano larguei o meu quiosque do Alive e diz que terei lugar cativo entre a Mena e o Pedro Fernandes. Na prática, o computador deixa de ser o meu irmão de sempre e dedico atenções agora a um iPad que mais parece uma folha de papel A4 e que me servirá para mostrar tudo o que acontece “à frente de uma hashtag”.
Dizem até que faço parte de um dos 10 motivos para ver o festival pela RTP!
O Twitter e o Facebook esperam-se as casas de todos os dias, rezando para que pelo meio de concertos e animação variada os transeuntes se lembrem de usar #NOSAlive no fim dos posts nas redes sociais.
Pelo caminho conto partilhar alguns vídeos gravados em tempo real a partir do estúdio e o que mais quiserem saber sobre os bastidores de uma das maiores operações da RTP.

Mas antes que a maratona comece quero só confessar que esta fui eu quando soube que ia ser comentadora do NOS Alive para a RTP.

//giphy.com/embed/NBn6ruSJ0AsjS

Júlio Isidro: um profissional como já não há

Dizem-me que sou uma alma antiga. Chamam-me assim porque, embora trabalhe com tecnologias, nem sempre lhes dou toda a atenção que elas pedem, porque ando sempre à procura de silêncio. Sou uma dessas pessoas ansiosas com a falta de tempo, stressadas com a criatividade aprisionada em prazos insensatos.
Na final do Festival da Canção tive a feliz oportunidade de entrevistar (e ser entrevistada) por Júlio Isidro. Disse-me ele que se sentia contente por poder tornar a apresentar um programa tão nobre como o Festival e por estar ao lado dos colegas mais novos. Por outro lado, embora não tenha ignorado o poder e importância das tecnologias, disse-me algo que me deixou a pensar: “Para se fazer arte é preciso ter tempo”.

vlcsnap-2015-03-08-00h38m33s61

VER ENTREVISTA

Júlio Isidro foi um ícone do seu tempo e tenho realmente pena que não o seja agora também, para os mais novos. Tenho algum pudor em aceitar que a vida pública prefere ir buscar rostos jovens, muitas vezes sem talento, do que gente que sabe realmente o que está a fazer. Este foi o homem que descobriu talentos como o António Variações ou o Herman José. Este foi o homem que deu a oportunidade de lançamento a tantos dos que vieram a fazer história na História da arte popular em Portugal.
E quando o ouvi falar, com uma serenidade e gentileza que já não existe em lado nenhum, encolhi-me de enternecimento e concordância, dentro dos meus 28 anos e dos meus quase cinco anos de RTP.

Hoje, Júlio Isidro foi chamado para apresentar, sozinho, o Agora Nós, porque o José Pedro Vasconcelos estava de férias e a Tânia Ribas de Oliveira ficou inesperadamente doente. Foi, ao contrário do que se possa pensar, uma lufada de ar fresco ouvir a voz e a calma de Júlio Isidro, que aceitou salvar a manhã com apenas uma hora de antecedência sobre o início do programa na emissão da RTP1.
Arrisco-me a dizer que são muito poucos os profissionais que o fariam tão bem e com tanta segurança, com o ânimo próprio de quem há muito que o faz e que o deveria fazer tão mais. Sem desprimor para os apresentadores que, merecidamente, nos entram pela casa dentro via televisor, levando nos ombros programas diários tão exigentes como o Agora Nós ou o Há Tarde ou semanais em horário nobre.
Mas hoje o dia é de homenagem a Júlio Isidro e aos 55 anos de carreira que lhe caem tão bem e que nos ensinam tanto sobre a vontade de querer fazer o que quer que seja no imediato… mas com a calma de quem se preparou a vida toda.

Apaixonar-se é cair nos olhos do outro

Há mais de 20 anos o cientista Arthur Aron conseguiu fazer com que dois estranhos se apaixonassem. Mais do que romântico, o momento nasceu de uma profunda intimidade entre duas pessoas que se conheceram a uma velocidade a que já não temos acesso quando nos tornamos adultos.
O tempo de que dispúnhamos quando éramos adolescentes, que nos servia para conversas intermináveis com pessoas que mal conhecíamos, desaparece em minutos de trabalho de escritório ou obrigações várias, umas mais alegres que outras. Seja por que razão for, em adultos perdemos a hipótese de nos conhecermos com pormenor e rapidamente.

O estudo deste cientista propunha um teste simples que não é mais do que uma conversa de 90 minutos em que devemos responder, com o outro, a 36 questões. Sobre nós, sobre ele e sobre como podemos relacionar-nos, o que temos em comum, o que admiramos positivamente. No final, propõe que apenas nos olhemos, nos olhos, em silêncio, por quatro minutos. Esse é o destino de toda a intimidade. E dessa intimidade nasce um amor ponderado em questões que não se deixaram marinar na atração física ou no gostar insípido.

“Most of us think about love as something that happens to us. We fall. We get crushed.”

Tenho o pensamento romântico de que o amor maior nasce dessa queda. Dele não se escapa, da mesma forma que não se o procura. O amor é essa construção sim, mas demora semanas, meses e anos. E talvez este ponto de partida para pessoas que estão dispostas a apaixonar-se seja um bom começo.

Do estudo nasceu um curto teste, em vídeo, que tem sido partilha obrigatória na explicação desta ideia. Já é viral.

Simone de Oliveira: a doçura e a força

Ontem conheci a senhora dona Simone de Oliveira. Foi um encontro curto, de gravador entre nós, porque o tempo urgia e porque, depois de tantas entrevistas, a querida Simone disse estar feita em puré. E no entanto a vontade de contar, dizer, explicar foi desconcertante. Ao lado dela, essa segurança tal que me senti encantada, amolecida e com vontade de lhe dar um abraço.

_PAP0443

Ali está uma mulher definitivamente resolvida com a vida. Que nunca deixou nada por dizer, que se fez das palavras que disse, das batalhas que travou, das canções que cantou e das coisas menos boas que viveu. Nos seus 70 e alguns anos, é de uma solidez e de uma força de carácter que impressiona e nos torna disponíveis para uma conversa que podia não ter um fim anunciado.

Talvez seja apenas nessa idade, aquela em que já nada temos de provar a ninguém, que se encontra enfim essa serenidade de que falámos. Talvez seja aí, só aí, que as competições ficam para trás, realmente esquecidas, enquanto resgatamos dos outros apenas aquilo que nos faz falta, apenas aquilo que nos querem dar de boa vontade. Talvez seja nos olhos de Simone que essa tranquilidade more, só agora, enquanto a lucidez espalha raízes sem pudor. E depois, com o mesmo à-vontade, convidou-me a juntar-me a ela quando a visse – como tantas vezes já – no seu restaurante favorito, para bebermos umas caipirinhas. Que bom que foi conhecer a Simone. Sem mais nada, só porque era disso que precisava.