o Pride é sobre amor e a oportunidade de não ter de pedir desculpa; conseguem ver isso?

Tenho dias em que oiço e leio sobre a comunidade LGBT, considerações escritas por gente heterossexual ou com conceitos heteronormativos, que afiança que este assunto, o da orientação sexual (excluindo a identidade de género), já não é um assunto. Dizem “sejam gays à vontade! Já ninguém quer saber! Já têm os mesmos direitos, o que é que vocês querem mais?”.

Vivo numa época em que as mudanças na lei já estão instauradas, em que a Constituição protege todos os que vivem aqui, no país em que tive a felicidade de nascer. O casamento está acessível a todas as pessoas, para casarem com quem quiserem. A inseminação artificial está acessível a todas as mulheres, as casadas, as solteiras, as heterossexuais e as homossexuais. A adoção é possível, por todos.

Os papéis, a lei, protegem-nos a todos.

Mas os papéis e a lei existem como objetos e objetivos. Eles não cuidam dos corações das pessoas, eles não educam, não ensinam as pessoas a respeitar os outros, não as ensinam a pensar melhor sobre os assuntos, não as tornam mais flexíveis, mais tolerantes, mais humanas.

Vivemos numa época em que as mudanças vão chegando de forma célere mas em que as cabeças continuam na mesma.

Das gerações mais jovens há uma nova abertura, para ouvir, nem sempre para compreender; mas ouvir já é bom. Dentro delas também há quem ainda “não concorde”, mas felizmente que a lei não as deixa tomar as decisões que ninguém lhes pediu. Que não aceitem, mas respeitando, o mundo vai andando para a frente e quem sabe se algum dia não acordam e percebem que as pessoas são mesmo só pessoas. Que gostam e cuidam, que amam e se chateiam, que criam vida e constroem futuro como toda a gente que nasce precisamente como a sociedade (e as Escrituras) previu.

É difícil falar com as gerações mais velhas. Porque a sociedade nos ensinou sempre, desde sempre, que é preciso ter respeito por elas. Elas moldaram o mundo em que vivemos, elas nos deram a vida, elas nos ensinaram sobre as coisas, nos acomodaram dentro do que puderam. E nós só temos de lhes pagar com a compreensão e a concretização das suas expectativas.

É que o mundo vai mudando, mas as expectativas mantêm-se. Há uma espécie de reza muda, convicta ainda assim, para que os bebés que nascem sejam o mais normal possível. Com todos os dedos, com toda a boa vontade, com inteligência, alguma beleza e, sobretudo, com um futuro que ajude e compense os que os arquitectaram, os que escolheram tê-los. É dentro desse futuro que estão as tais expectativas.

E às vezes, para infortúnio dos pais, das famílias, os bebés que se tornaram adultos não corresponderão às expectativas.

Vivo numa época em que as pessoas que tentam mudar o mundo são sensíveis o suficiente para pedirem desculpa por não cumprirem as expectativas. Vivo numa época em que as pessoas do outro lado do telefone se mostram ofendidas por isso, sem pudor. Porque não há pudor quando toca a dizer ao outro: “Não esperava que tivesses escolhido ser isso”. Não importa dizer que não é uma opção, que é uma orientação sexual; com o melhor tom de voz que já se imaginou. Do outro lado do telefone há a razão das expectativas que justifica tudo.

“Não cumpriste as minhas expectativas. Therefore, posso estar desapontado contigo.”

Haverá uma época – que não será esta em que eu vivo – em que ninguém sentirá esse peso de ter de pedir desculpa. Nessa época que há-de vir, as pessoas não precisarão de uma lei que as proteja porque as expectativas terão expandido de tal forma que a humanidade de cada um dir-lhe-á “se ele te diz que o ama, então é razão para tu estares feliz”. E ficarão felizes deveras! Começarão a gritar e a dar os parabéns, a perguntar tudo sobre o casamento e como se conheceram. Será uma boa época para viver.

Mas esta ainda não é essa época.

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e se fossemos nós a ter de fugir da guerra num barco de borracha?

A crise dos refugiados não nos toca. Acontece lá longe, nas costas da Europa, trazida em barcos de borracha a abarrotar de gente desesperada, vestida de coletes berrantes que não salvam ninguém. Evitemos chamar-lhe crise e sobretudo chamar-lhes refugiados. Na nossa cabeça os refugiados são gente foragida, pobre e sem posses. O nosso racismo inerente, perpetuado pelas imagens e fotografias que nos vão chegando pela imprensa, faz-nos imaginá-los de pele escura e feições aquilinas, aos berros, sempre aos gritos, a passarem por cima de outros seres humanos, eles também a tentarem escapar.
Evitemos chamar-lhe isso. Mas chamar-lhe outra coisa qualquer é só hipócrita, não vos parece? Não tenhamos medo.

A crise dos refugiados acontece perto e parece não ter uma solução. Não posso condenar os Estados-Membros que tentam impedir a chegada dessas pessoas porque não conheço a fundo os meandros da política pensada e delineada para manter a segurança e a paz nos países que não têm guerra. Não irei fazê-lo. Mas não posso aceitar placidamente que haja quem esteja a fazer por salvar pessoas com o destino traçado, com total indiferença pelos próprios objetivos de vida, pelo próprio comodismo, e que esteja sujeito a multas e pesadas penas de prisão. Isso não posso compreender.

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É a primeira vez que tomo conhecimento do conceito de “crime de solidariedade“. Li-o hoje pela primeira vez quando as redes sociais me contaram do caso do Miguel, um português estudante do Instituto Superior Técnico que decidiu fazer-se ao Mar Mediterrâneo no Iuventa 10 para ajudar a garantir a sobrevivência de milhares de homens, mulheres e crianças que se lançam ao mar para fugirem à guerra dos seus países de origem.

Estas pessoas têm a pele escura. Elas falam em dialetos e línguas que não compreendemos. Elas vêm de países que outrora já foram grandiosos e organizados ou que nunca o foram. Elas sabem usar um telemóvel. Usavam óculos ou conduziam. Mas quando a guerra chega somos todos pessoas enlameadas sem lugar para voltar.

O Miguel salvou vidas e agora vai pagar por isso. Salvou migrantes ilegais que só queriam sobreviver e fez uma coisa ilegal porque não conseguia assistir só a partir de um ponto seguro no mundo.

Miguel

Nem todos temos o arcaboiço para fazer o que o Miguel fez. Eu não tenho. Ou talvez tivesse, mas talvez nunca o venha a saber porque não sou corajosa o suficiente para tentar. Mas não termos coragem ou total conhecimento do que se passa não significa que não possamos ajudar ou que não possamos procurar informação e manter-nos alerta.

Por isso, se quiserem, leiam mais e saibam mais.

Se puderem, ajudem o Miguel e os nove outros voluntários da ONG a evitarem esta falta de sentido que é irem presos por um crime de solidariedade. Se ajudarmos todos, ficará mais fácil para todos.

#EuFariaOMesmo

são estas as 10 (primeiras) histórias do projeto anti-preconceito

O projeto anti-preconceito faz-me encolher o coração muitas vezes.

Agora que vou revendo e recortando as entrevistas, há momentos (muitos) em que sinto que preciso de uma pausa. Algumas pessoas carregam histórias completamente inesperadas… E em todos os dias em que as oiço e as absorvo, saio da RTP mais pesada mas mais atenta.

Isto não são as histórias do daytime, se é isso que vos parece. Nem são histórias inspiradoras. Não são relatos de superação nem de conquista. As histórias que passaram pela minha cadeira do cenário amarelo são partes de vidas enormes que quiseram ensinar o mundo a olhar com mais atenção, mas sem lhe pedir nada.

Nenhuma das pessoas que se sentou naquela cadeira pediu aceitação. 
Nem uma.

Para esta primeira temporada selecionei 10 histórias, dez pessoas que são tão variadas no que querem contar quanto no comum que sabem ser. “São só pessoas”, como me disse o realizador do projeto, espantado.

Assim, e já que vamos caminhando para o momento em que vos mostre tudo isto, partilho convosco os tópicos das histórias que vão poder ouvir:

  • Ricardo, o cego que não é um unicórnio
  • Joana, a gorda (que nem é!) que garante que vamos todos falecer
  • Diana, a bruxa boa
  • João, o anti-maricas (in a good way!)
  • Mariana, “a do poliamor”
  • Daniela, a co-mamã otimista até ao fim
  • Isaac, o trans que não precisa de um certificado de homem verdadeiro
  • Carla, a corajosa que nos explica o que se sente numa depressão
  • Estela, a imigrante que pensa sobre o que é ser estrangeiro
  • Rafael, o cozinheiro tatuado que não é um bandido

Estamos agora em processo de edição de todas as entrevistas que fizemos em janeiro. Já temos genérico e nome 🙂 Que partilharei tão em breve.

Mas hoje, enquanto ouvia mais uma, não aguentei guardar tudo isto para mim.

Quero muito que seja tão importante para os que ouvirem quanto tem sido para mim levar em frente esta empreitada.

como criar confiança ou porque é que ser autêntico ainda dá tanto medo

Acredito que o que somos na vida deve ser em tudo semelhante ao que somos no trabalho. A forma como nos apresentamos, como apresentamos as ideias que temos, como nos relacionamos com os outros – todos os outros e não só os que nos servem para algo – conta a todos sobre aquilo que nós somos.

Não raras vezes esquecemo-nos que o melhor que podemos dar aos outros é a nossa atenção. A empatia e a curiosidade ficam tantas vezes pelo caminho por acharmos que, se não passarmos tanto tempo a explicar o que somos, nunca teremos um papel relevante nas vidas dos outros.

Não acho que seja verdade. Aquilo que nos liga a todos é o espaço para ouvir. E o que nos conecta são as ideias que partilhamos. Quanto mais maturado for o que partilhamos, mais espaço teremos para o ir melhorando. É que as melhores ideias não chegam já perfeitas; precisam de outras opiniões, de participações.

Por último, a autenticidade. Ontem, numa entrevista que me fizeram para o “Onde, quando e como eu quiser”, quis sublinhar over and over aquilo em que mais acredito: sermos (de) verdade atrai. Sermos verdadeiros, quase transparentes, sermos reais, sermos falíveis e autênticos torna-nos interessantes. Então por que passamos tanto tempo a tentar ser tudo o que esperam de nós? Será que achamos que somos assim tão maus? E, se acharmos, não seria mais inteligente afinarmos algumas coisas do que passarmos o dia a fingir que não somos nada disso?

Hoje, ouvi uma TED Talk que fala sobre confiança. Como criar confiança, sobretudo depois de a quebrar.

Empatia. 
Lógica.
Autenticidade.

 Wear whatever makes you feel fabulous. Pay less attention to what you think people want to hear from you and far more attention to what your authentic, awesome self needs to say. And to the leaders in the room, it is your obligation to set the conditions that not only make it safe for us to be authentic but make it welcome, make it celebrated, cherish it for exactly what it is, which is the key for us achieving greater excellence than we have ever known is possible.

Eu também sou uma mulher de opiniões fortes. Também me sinto diferente num espaço em que as pessoas me pareçam desinteressadas na renovação, na inovação e no entusiasmo. Já desisti de algumas, confesso. Mas antes lutei tudo o que podia. E dessas lutas não me arrependo.

Se algumas coisas que disse a uma certa altura me pareceram erradas, deslocadas e chutadas para um canto, traz-me no entanto alguma paz saber que não sou a única a acreditar no poder da empatia e da autenticidade. Nunca cheguei a questionar a ilógica de algumas pessoas; no fundo acabei a acreditar que eu é que estava errada.

É bom saber que há por aí quem pense no mesmo sentido que eu.
E vocês, que pensam vocês?

 

algo novo por 30 dias: who’s with me?

Sempre que passo demasiado tempo no sofá, levanto-me triste.
Não interessa se aquilo a que assisti foi um filme para rir, um documentário super interessante ou uma série imperdível. Invariavelmente, sempre que fico por ali mais do que duas horas, levanto-me com o peito pesado e um sentimento de perda.

Sofro de uma ansiedade igual à de tantas outras pessoas. Não sou mais especial por isso nem me considero mais ativa por isso. Quando chego a casa são muito raras as vezes em que descanso onde quer que seja.
Desconfio que sofro de um Síndrome Dona de Casa, que me acompanha desde que me lembro. Padeço também do Síndrome Capricórnio, que reúne todas as pessoas que optam por fazer os trabalhos de casa (TPCs) antes de irem brincar. Já adulta, continuo a encarar as responsabilidades da mesma maneira: primeiro o que é obrigatório, depois o opcional.

O problema disto é que tudo o que serve para absolutamente nada e constitui puro lazer é quase invariavelmente opcional para mim.

Sentar-me no sofá a ver uma série ou um filme nunca foi uma ação natural. Nunca figurou na minha lista de to-dos e não constitui importância suficiente para largar a mania de ter tudo arrumado, a loiça lavada, a roupa arrumada nas gavetas, o cão passeado. Quando cedo e me sento, horas a mais, a ver o que quer que seja, aprecio o que aprendo, mas levanto-me com a sensação de inutilidade completa.

É mentira. Assistir a séries, documentários, teorias, histórias e filmes não é tempo perdido. Tento convencer-me, no entanto, que é uma espécie de pesquisa essencial para ter novas ideias.
Só que aparentemente não resulta…

A ansiedade que me acompanha deixa-me a cabeça cheia de coisas. Ainda agora, que estou a escrever isto, estou a pensar no quanto deveria estar a rever as duas primeiras entrevistas já editadas para o projeto contra o preconceito e que em vez disso estou aqui a perder tempo.

Tudo cria ansiedades desmedidas porque, let’s face it, há sempre alguma coisa que devíamos estar a fazer e não estamos.

Na semana passada, para contornar isso, obriguei-me a comprar uma agenda. Pensei que se tivesse as coisas alinhadas verdadeiramente em dias específicos que ajudaria a escoar as ideias que me moram por aqui.

Ajudou alguma coisa. Mas ainda assim…

Hoje ouvi o podcast TED Radio Hour que reunia várias histórias sobre “A Better You”. Entre elas, uma proposta simples do Matt Cutts que propõe que façamos algo que sempre quisemos fazer por 30 dias. A ideia é criar novos hábitos: apagar hábitos antigos e manter ou rejeitar definitivamente outros.

A premissa é nunca ir dormir sem ter cumprido aquilo que delineámos. E, ao final dos 30 dias, ponderar se queremos manter esse hábito ou, se por outro lado, não queremos repeti-lo ou preferimos moderá-lo.

O primeiro desafio dos 30 dias, diz o Matt Cutts, pode ser tirar uma fotografia todos os dias.

“Instead of the months flying by, forgotten, the time was much more memorable. This was part of a challenge I did to take a picture every day for a month. And I remember exactly where I was and what I was doing that day.”

Parece-me fácil.

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Não sei até que ponto é que um desafio destes pode, por outro lado, contribuir para aumentar ainda mais a tal ansiedade de que falava. Se já não sei estar só a aproveitar os dias sem integrar neles todas as coisas a que me obrigo por pura responsabilidade, não será isto só mais uma coisa a adicionar à lista?

Ainda assim, gostava de experimentar.
Percebi que talvez se tiver companhia possa tornar-se num jogo, em vez de numa obrigação, num momento de agenda.

Por isso a minha proposta é simples: quem quer começar este jogo comigo?

 

Next step: os rótulos não são o demónio

Os últimos dois dias têm sido inacreditáveis. Ando por todo o lado a sentir-me uma espécie de super-herói cujo único poder é guardar uma série de segredos incríveis.

Nunca pensei que houvesse tanta gente disposta a expor-se para contribuir para mudar algo. Que quisesse contar aos outros o que lhe fizeram, o que lhe fazem e o que não admite que continuem a fazer-lhe. 🙏

O preconceito não se associa a um só rótulo. Somos julgados e condenados por vários ao mesmo tempo. Fechamo-nos em tribos por conforto.

Os rótulos não são maus. O mau é o que os que não nos querem bem fazem com eles.

“Que projeto é este? Que moldes terá?”

O objetivo é conceder poder a quem é rotulado por maldade ou por ignorância. É alhearmo-nos da perversidade dos outros e tomarmos as rédeas daquilo que nos chamam com malícia. Um grande ‘fuck you, this is me’, no fundo. Ou, sendo mais formal, uma tomada de força, um assumir do que se é sem olhar a represálias (porque essas já são o ponto de partida de tudo isto, não é verdade? Portanto… o que há a perder?).

As entrevistas serão gravadas em áudio e vídeo. Incluem câmaras mas também incluem algo não metálico: eu! 🙂 Que servirei essencialmente para conversar com os protagonistas. (My favorite thing!)
Trabalho na RTP e estarão associadas às plataformas da empresa.

Tudo o resto partilharei convosco a seu tempo.

“Para que serve este projeto?”

Existe preconceito em todos nós. Até nos mais liberais, nos que vivem em contacto só com a natureza e nos de mente aberta. O preconceito é o desconforto perante o outro. É o não saber lidar com a realidade do outro.

Às caras que se apresentarão cabe a honrosa responsabilidade de fazer ver aos outros sobre a sua realidade. A quem assista, a capacidade de ponderar algo que pode ou não alguma vez ter-lhe passado pela cabeça.
O objetivo é ficarmos mais conectados. Nem todos os preconceitos sairão do nosso ADN (mas se conseguirem, bravo!, e quero conhecer-vos) mas ganhar sensibilidade sobre algo com o qual não nos identificamos pode tornar-nos infinitamente mais serenos com tudo o que não compreendemos. Não?

“Já me inscrevi. E agora?”

Estou a reler todas as histórias que me foram chegando.

Obrigada a todos os que me escreveram e que se disponibilizaram a contar histórias incríveis. Tenho andado os últimos dois dias de lágrimas nos olhos (das boas!). A vossa confiança é comovente e inspiradora!

Vou selecionar algumas histórias e serão contactados por e-mail para que possa saber mais sobre cada um. É preciso alguma seleção dado que me chegaram muito mais histórias do que estava à espera ❤️ Mas não ficarão sem resposta!

Por fim, um obrigada a todos os que, não tendo histórias para contar ou preferindo guardar as suas para a esfera privada, me contactaram pelo Facebook, pelo Instagram e pelo Twitter para me deixar uma palavra ou uma nota de disponibilidade para ajudar. É bom saber que há por aí muito boa gente com o mesmo sentimento!

Até já!

Doutores e Engenheiros, para que vos quero?

Entrei para a RTP em junho de 2010, estagiária de função, responsável por escrever os textos que acompanhavam cada elemento de programação da RTP1 e RTP2.
Era na verdade demasiado rápida e acabava uma semana inteira de trabalho em dois dias. Foi assim que vim parar às redes sociais e, pela ordem natural das coisas deste género, à Multimédia.

Nunca percebi as ‘estruturas’ e as ‘hierarquias’ que por aqui se arrumam. Não por não estarem bem explicadas; mais porque nunca soube lidar com títulos, ‘doutores’ e ‘engenheiros’, ‘diretores’ e cargos afins. Compreendo os cargos, não compreendo as nomenclaturas. Também nunca fui boa a sentir-me inibida ou proibida de falar com quem quero por não ter intermediário.

Minto: até aos 6 anos foi o meu primo que pediu tudo no café por mim, fossem copos de água ou bolos com creme; passou-me quando percebi que não tinha tempo a perder.

Hoje sei, melhor do que há oito anos, que há cargos que, quando bem ocupados, conseguem mudar o mundo que lhe deram para as mãos. Não pelo ‘doutor’ que se lhes precede, mas pela pessoa que levam dentro.
Ao contrário do que a sociedade nos incute, não são as nomenclaturas a fazer a diferença no nosso respeito e devoção, numa conversa, numa discussão. Não deviam ser. Porque o que faz a diferença no dia-a-dia são as pessoas que não se importam que o título não se lhes vá agarrado, cujo foco é o que fazem com paixão, com vocação.

Essas são as minhas pessoas preferidas, desculpem-me que vo-lo diga. E foram também das que melhor me orientaram, se posso ser muito franca.

Parece-me deveras provinciano – e isto nada tem a ver com a província propriamente dita – que se respeite mais alguém por vir associado a um cargo. Parece-me ridículo que se oiçam mais as ideias de um presidente e de um diretor engravatados quando os zilionários (como o Mark Zuckerberg) usam sweats todos os dias e têm desenvolvido das ideias mais lucrativas das últimas décadas. São CEOs e no entanto duvido que alguém os trate por CEO Zuck todos os dias. Ainda nos falta recuperar desse estigma português dos doutores e engenheiros do antigamente.

Tenho sempre fé na mudança. Que o que chega vem melhor do que o que acabou de partir. Mesmo quando o que parte já foi bom. Sou otimista nessa medida. Mas não consigo deixar de pensar que de cada vez que chega alguém que se quer fazer acompanhar de um título esse título pesará mais do que o bem que traz pelas costas. Só porque o foco não está onde devia, só porque o trabalho vem depois do cargo; e isso desmotiva. Isso é o que faz com que o que chegue venha do passado e que não queira caminhar pelo presente como devia.

De alguma forma o que aí vem acarta um bom pronúncio. Encho-me novamente de otimismo. Porque se não nos enchermos de otimismo paramos e parar não é uma opção.