escapar do que esperam de nós

Hoje recebi um telefonema tão bom, tão importante, que me vieram as lágrimas aos olhos.

No dia em que partilhei o artigo em busca de pessoas anti-preconceito recebi uma onda de boa vontade, bem querer e coragem que nunca esperei. Os formulários foram chegando, sem idade, só com histórias que mais tarde ganharam caras e datas de nascimento. Chegaram sobretudo vindos de mulheres. Questionei-me sobre se os homens não estão sujeitos a preconceito, se são melhores a relativizar ou se lhes foi incutido que a partilha de histórias do género os perpetua como gente fraca ou queixosa, se as queixas são mais livres para as mulheres. Mas adiante.

Tenho pouco mais de 30 anos e trabalho na RTP há 8 anos e meio. Numa empresa com a história desta, ter luz verde para um projeto para o online – que pretendia dar a conhecer as caras que suportam histórias maldosas mas que sabem superá-las, esclarecê-las e dar força ao positivismo que reina em cada um desses rótulos – não foi fácil, célere ou sobretudo prioritário.

Tive reuniões em que a maior parte das pessoas à mesa eram homens. Mais velhos, de gerações muito distantes da minha, que me olhavam com algum carinho, alguma benevolência mas, muito mais do que isso, com curiosidade. Da boa. Ouviram as minhas histórias – decalcadas dos formulários, das vossas – com algumas perguntas, alguma perplexidade. Mas no fim, sem excepção, todos se despediam com uma cara menos fechada, com perguntas sobre o que desconheciam e garantiam que tinham ficado ansiosos por ver o projeto em marcha.

Hoje, depois das entrevistas terminadas, recebi um telefonema do produtor, que assistiu a algumas destas conversas por inteiro.

Queria dar-te os parabéns. Escolheste muito bem os convidados. E até em conversa com [o realizador] comentámos que há coisas que tínhamos imaginado de uma forma diferente, pessoas que tínhamos imaginado de forma diferente, e acabámos por aprender muito, saímos das suposições que tínhamos sobre alguns assuntos. Por isso, parabéns. Estou desejoso de ver o resultado final.

O próprio realizador comentou comigo, enquanto gravávamos, que há coisas que, não sendo da sua geração e não tencionando aplicá-las para si, passaram a ter uma nova forma naquilo que depreendia do assunto.

É que vê-se que estas pessoas são esclarecidas. Elas não estão a pedir desculpa, nem sequer estão a pedir que aceitemos. Estão só a explicar-se. E explicam-se bem e acabam por desdramatizar uma série de coisas. São só pessoas.

Podia dizer-vos o que significaram para mim todas as conversas com as pessoas que vieram, se sentaram numa cadeira no meio de um cenário amarelo e confiaram em mim. Mas decerto teremos muito tempo para falar sobre isso.

Hoje um telefonema que não era de trabalho, que era de apoio e suporte profissional, mostrou-me que sim, vale a pena superar o que está estabelecido, que vale a pena sentar-me à mesa com gente que talvez não perceba o que estou a explicar mas que me deu a oportunidade de fazer, que confiou no meu discernimento, às cegas. Que vale a pena tentarmos escapar do que esperam de nós.

 

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PROCURA-SE: pessoas anti-preconceito que não se importem de falar sobre isso

Temos a sorte de ter nascido na Europa. The Old Continent alberga os descendentes de grandes pensadores, filósofos, gente de garra que lutou pela intelectualidade e pela força para mudar as coisas. Temos também a sorte de vivermos aqui neste canto perfeitamente pacato, o Portugal dos Pequeninos, carregado de boa gente, gente simples e inovadora, gente valente que trabalha com afinco ou que se encosta quando faz mais calor.

Termos sorte não significa que as coisas não precisem de ser conversadas. E a questão do preconceito é um tema que insiste em regressar como um pop-up à minha cabeça. Não porque o integre sem descanso no meu rol infindável e imparável de pensamentos, mas porque me aparece todos os dias pelas histórias dos outros. E isso não me dá descanso.

O preconceito está tão enraizado na forma como nos moldam para este encaixe de sociedade que chegamos a ignorar que os pré-conceitos nos limitam na liberdade de criar, sentir e lutar.

Por isso tive uma ideia. 

PROCURA-SE: 

  • Bons comunicadores que não tenham medo/receio/pudor/vergonha/repulsa em contar na primeira pessoa a SUA própria história sobre preconceito
  • Gente que não se importe de ser gravada e de conversar comigo 🙂
  • Pessoas de coração aberto

A minha noção de preconceito sobre este ou aquele assunto pode estar totalmente errada. Eu também sou preconceituosa! Por isso quero contar com pessoas que saibam explicar-me qualquer história que tenham tanto pelo lado mais introspetivo como pelo lado mais bem-disposto.

E quando penso em preconceito estou a falar de um espectro amplo de ideias pré-concebidas. A cor da pele, uma religião menos enraizada na nossa sociedade, a orientação sexual são temas que nos vêm imediatamente à cabeça, mas há muitos mais. As profissões que desempenhamos, a forma como amamos, como comemos, como nos mexemos, como superamos obstáculos, como nos ajudamos… Quero conhecer tudo isso. E quero que consigamos explicar, finalmente!, uns aos outros as coisas que são verdade sobre os preconceitos que os outros têm sobre nós e as que são absolutamente surreais! 

Seguem alguns exemplos de pessoas que gostava de conhecer (e perdoem-me se os rótulos são eles próprios um preconceito terrível; no caso, serve só para tentar explicar melhor a minha ideia):

  • Feminista
  • Machista
  • Gender Fluid
  • Poliamoros@
  • “Gord@”
  • “Magr@”
  • Suicide Girl
  • Gender Queer
  • Vegan
  • Padre
  • Evangélico
  • Idos@
  • Monge
  • Transgénero
  • Invisual
  • Vegetariano
  • Adepto de claque de futebol
  • Surd@
  • Drag Queen
  • Muçulman@
  • Gay
  • Lésbica
  • Ex-vítima de violência doméstica
  • Pessoa com psoríase
  • Pessoa depressiva
  • Autista
  • Testemunhas de Jeová
  • Pansexual
  • Casais com grande diferença de idade
  • Casais inter-raciais
  • Transexual
  • Agente funerário
  • Taxidermista
  • … todos os outros!

 

Aceito de bom grado as vossas sugestões e estou aberta a qualquer conversa sobre o assunto.

Para que possa conhecer-vos, peço-vos que preencham este formulário (ao qual só eu terei acesso). Lets take it from there 🙂

Passem a mensagem, partilhem com os vossos amigos, por aqui, nas redes sociais todas de que se lembrem, nas conversas na praia, nos lanches no café, nas tardes de esplanada.

Obrigada a todos!

Selfie Journalism: a verdade que não se esconde

Faço parte de uma geração que procura a (sua) verdade das coisas, incessantemente e curiosamente. Sou também, e gloriosamente, do tempo em que todos podem ter acesso a informação imediata, atualizada ao minuto, por profissionais de excelência e por profissionais do clickbait e do sensacionalismo. Andamos todos em busca do Vale Encantado da informação desprovida de artifícios, aquela do imediato, sem filtro e sem subterfúgios. Partilhamo-la antes de a confirmarmos porque nos parece melhor uma informação errada do que informação nenhuma.

É claro para mim que o jornalismo como o conhecemos mudou e que as pressões por pageviews minam o trabalho de quem outrora perdia mais tempo com investigações. Mas sou otimista: acredito que esta mudança nos está a dar espaço para a criação de um jornalismo de proximidade aberto, novo, real o mais possível.

Chamem-lhe selfie journalism – ou jornalismo-selfie – sem desprimor. Um jornalismo mais perto da realidade do que qualquer outro, reativo, empolado, não-editado e superficial algumas vezes, mas útil e imediato. Feito por pessoas que estão no local, que têm as emoções que o jornalista não pode ter, que não consegue incutir numa peça isenta de considerações mais ou menos óbvias, mas que se querem objetivas.

Este novo jornalismo apresenta-se como uma espécie de one-band man storytelling, apoiado nas redes sociais que nos pedem Histórias todos os dias. O telemóvel – móvel como mais nenhuma ferramenta – já consegue fazer as vezes de câmara, microfone, editor de vídeo, distribuidor de conteúdo. É inegável.
Embora os veteranos possam encarar este modo de fazer notícias como infantil, amador e desrespeitoso para o jornalismo tradicional, é inegável que esta verdade se tornou mais absoluta do que os artigos de fundo sobre famílias envolvidas nos acontecimentos, entrevistas acordadas e imagens editadas. As redes sociais não pedem a organização de outrora, sequer o cuidado estético a que alguns de nós almejamos.

We’re forgiving, we just want a good story.

Ser jornalista sempre contou com os inputs dos protagonistas das histórias que se pretendia contar. Isso não mudou. Mudou o meio através do qual nos chegam essas histórias. Qualquer pessoa pode ser um selfie journalist.
As redes sociais não têm de ser repositórios de fake news e comentários sobre assuntos sem profundidade. Embora consiga entender o quão difícil possa ser ignorar o fogo de artifício que por lá vai, algumas redes devem ser usadas para contar mais e melhores histórias. Chamar a atenção para determinados assuntos, contar na 1.ª pessoa assuntos demasiado graves para serem esquecidos, mas demasiado sensíveis para serem compilados em edições.

Os conteúdos produzidos em telemóvel têm três vezes mais adesão do que o conteúdo produzido por um broadcaster. É mais rápido, mais imediato e, sobretudo, mais direcionado. O público-alvo procura aquilo que quer ver, envolve-se no conteúdo que lhe fala à personalidade e perde-se facilmente em assuntos relacionados.
Se o on-demand ganhou importância e destronou os clubes de vídeo, a busca de fontes próximas tornou-se bastante natural também. Todos temos “aquele-amigo-que-estava-lá-que-conhece-alguém-que”. Acabamos a pegar no telefone e a ligar-lhe, para ouvir de quem confiamos o que realmente aconteceu.

O futuro das notícias passa também pela agregação dos vários pontos de vista, conteúdos criados pelos próprios protagonistas, sem curadoria, sujeitando-se às várias camadas de considerações pessoais sobre um assunto. Daí, quem lê e quem procura junta-se a um lado da barricada que mais lhe fale aos princípios.

As pessoas não querem multicâmara, querem selfie journalism. 

É lógico que a contextualização dos profissionais redatores de notícias é essencial para a compreensão de um tema mais vasto do que o que o imediato propõe. O suspense e o engagement, no entanto, são aditivos e é isso que conduz a que cada vez mais procuremos o que não tem filtro para entender uma história.

É o assunto que importa. Não o meio, não a voz de quem o relata, mas a persona de quem o vive numa pele irrepetível. É esta no fundo a selfie que realmente pode fazer diferença.

Os dias contados do Buzz

O Buzz foi um presente inesperado. Deu-me dores de barriga, ansiedades várias. Fez-me questionar se estaria à altura para falar na rádio – um meio tão sério! De respeito! -, eu que sou tão atabalhoada a expressar ideias, que me perco em devaneios, que posso falar sem parar sem dizer nada de importante.
Morou em vários horários, teve vários interlocutores de peso na Antena3. Uns davam-lhe muita atenção, outros faziam as suas vidas nesses dois minutos de muita intensidade radiofónica, arrancada do online por um bocadinho.

O online pode ser cruel. Melhor, o online é cruel. A rádio é doce e contemplativa.
Quantos buzz’s dei com os quais não concordava. Quanta atenção se deu e se dá a notícias que não importam, que não significam, que não têm sumo nenhum.
Criei sumo (tentava). Expliquei por que não concordava (mesmo que não fosse isso o que me era pedido). Achei que ninguém ouvia, às vezes. Recebi sugestões, tweets, mensagens de amigos que gostavam de ouvir a minha voz a meio da tarde, inesperadamente. Havia sim alguém a ouvir; (h)ouve sempre.
Tive dias em que não havia assunto. Buzz’s praticamente inventados em cima do joelho. Os que tive de gravar nunca me saíram tão bem. Gosto dessa comunicação com quem estivesse do outro lado do ecrã do estúdio; mesmo que distraído.
Foram mais dias do que os que me lembro a sentar-me à frente daquele microfone e a sorrir para quem não me via. A dar a voz ao meu corpo e não o contrário.

E foi bom.

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O Buzz nasceu num formato particular, de reação à realidade. Pouco a pouco, o mundo em que vivemos tornou-se, todo ele, isso mesmo.
Talvez seja por isso que sinto que é tempo de sair para a rua e procurar novos buzz’s: aqueles que saiam de mim. Mais positivos, talvez. Menos imediatos talvez. Mais interessantes, espero.

O Buzz vai de férias por tempo indeterminado no final desta semana.

Obrigada Ricardo Tomé. Ao JAL, ao Rui Pêgo. Ao Luís Oliveira, ao Tiago Ribeiro, à Raquel Bulha, à Ana Galvão, ao Rui Estevão, à Joana Marques e à Joana Dias. Ao Nuno Reis.
Aos que se encheram de paciência para me ouvir quando refilei.
À Antena3.
I’ll be back.

#NOSAlive: a comentar é que eu estou bem

Este ano larguei o meu quiosque do Alive e diz que terei lugar cativo entre a Mena e o Pedro Fernandes. Na prática, o computador deixa de ser o meu irmão de sempre e dedico atenções agora a um iPad que mais parece uma folha de papel A4 e que me servirá para mostrar tudo o que acontece “à frente de uma hashtag”.
Dizem até que faço parte de um dos 10 motivos para ver o festival pela RTP!
O Twitter e o Facebook esperam-se as casas de todos os dias, rezando para que pelo meio de concertos e animação variada os transeuntes se lembrem de usar #NOSAlive no fim dos posts nas redes sociais.
Pelo caminho conto partilhar alguns vídeos gravados em tempo real a partir do estúdio e o que mais quiserem saber sobre os bastidores de uma das maiores operações da RTP.

Mas antes que a maratona comece quero só confessar que esta fui eu quando soube que ia ser comentadora do NOS Alive para a RTP.

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Júlio Isidro: um profissional como já não há

Dizem-me que sou uma alma antiga. Chamam-me assim porque, embora trabalhe com tecnologias, nem sempre lhes dou toda a atenção que elas pedem, porque ando sempre à procura de silêncio. Sou uma dessas pessoas ansiosas com a falta de tempo, stressadas com a criatividade aprisionada em prazos insensatos.
Na final do Festival da Canção tive a feliz oportunidade de entrevistar (e ser entrevistada) por Júlio Isidro. Disse-me ele que se sentia contente por poder tornar a apresentar um programa tão nobre como o Festival e por estar ao lado dos colegas mais novos. Por outro lado, embora não tenha ignorado o poder e importância das tecnologias, disse-me algo que me deixou a pensar: “Para se fazer arte é preciso ter tempo”.

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VER ENTREVISTA

Júlio Isidro foi um ícone do seu tempo e tenho realmente pena que não o seja agora também, para os mais novos. Tenho algum pudor em aceitar que a vida pública prefere ir buscar rostos jovens, muitas vezes sem talento, do que gente que sabe realmente o que está a fazer. Este foi o homem que descobriu talentos como o António Variações ou o Herman José. Este foi o homem que deu a oportunidade de lançamento a tantos dos que vieram a fazer história na História da arte popular em Portugal.
E quando o ouvi falar, com uma serenidade e gentileza que já não existe em lado nenhum, encolhi-me de enternecimento e concordância, dentro dos meus 28 anos e dos meus quase cinco anos de RTP.

Hoje, Júlio Isidro foi chamado para apresentar, sozinho, o Agora Nós, porque o José Pedro Vasconcelos estava de férias e a Tânia Ribas de Oliveira ficou inesperadamente doente. Foi, ao contrário do que se possa pensar, uma lufada de ar fresco ouvir a voz e a calma de Júlio Isidro, que aceitou salvar a manhã com apenas uma hora de antecedência sobre o início do programa na emissão da RTP1.
Arrisco-me a dizer que são muito poucos os profissionais que o fariam tão bem e com tanta segurança, com o ânimo próprio de quem há muito que o faz e que o deveria fazer tão mais. Sem desprimor para os apresentadores que, merecidamente, nos entram pela casa dentro via televisor, levando nos ombros programas diários tão exigentes como o Agora Nós ou o Há Tarde ou semanais em horário nobre.
Mas hoje o dia é de homenagem a Júlio Isidro e aos 55 anos de carreira que lhe caem tão bem e que nos ensinam tanto sobre a vontade de querer fazer o que quer que seja no imediato… mas com a calma de quem se preparou a vida toda.

Simone de Oliveira: a doçura e a força

Ontem conheci a senhora dona Simone de Oliveira. Foi um encontro curto, de gravador entre nós, porque o tempo urgia e porque, depois de tantas entrevistas, a querida Simone disse estar feita em puré. E no entanto a vontade de contar, dizer, explicar foi desconcertante. Ao lado dela, essa segurança tal que me senti encantada, amolecida e com vontade de lhe dar um abraço.

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Ali está uma mulher definitivamente resolvida com a vida. Que nunca deixou nada por dizer, que se fez das palavras que disse, das batalhas que travou, das canções que cantou e das coisas menos boas que viveu. Nos seus 70 e alguns anos, é de uma solidez e de uma força de carácter que impressiona e nos torna disponíveis para uma conversa que podia não ter um fim anunciado.

Talvez seja apenas nessa idade, aquela em que já nada temos de provar a ninguém, que se encontra enfim essa serenidade de que falámos. Talvez seja aí, só aí, que as competições ficam para trás, realmente esquecidas, enquanto resgatamos dos outros apenas aquilo que nos faz falta, apenas aquilo que nos querem dar de boa vontade. Talvez seja nos olhos de Simone que essa tranquilidade more, só agora, enquanto a lucidez espalha raízes sem pudor. E depois, com o mesmo à-vontade, convidou-me a juntar-me a ela quando a visse – como tantas vezes já – no seu restaurante favorito, para bebermos umas caipirinhas. Que bom que foi conhecer a Simone. Sem mais nada, só porque era disso que precisava.