ouvir sobre neurociência na Fundação Champalimaud

Sou pelas ciências sociais e pelas palavras porque é através delas que consigo ver-me livre de sentimentos aprisionados. A exatidão das coisas dá-me alguns arrepios, embora seja das pessoas mais racionais que conheço. Não sonho porque tenho a superstição de que pode tudo correr mal ou que, caso não aconteça, me custe demasiado a aceitar o insucesso.
Ontem, no entanto, fiz parte de um momento que em tudo parecia desindicado para mim. Com cientistas curiosos que se sentaram à minha volta e que prontamente me deram uma chapada de luva branca acerca de todos os meus preconceitos. Fui a uma conferência sobre neurociência, onde três oradores me souberam tornar curiosa sobre coisas que não são mais do que analogias da sociedade que todos vamos construindo.

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Aprendi eu que a ciência se debate com dois estados de alma que desafiam positivamente os cientistas: a paciência e a frustração. E que trabalham com hipóteses que experimentam até à exaustão. Não raras vezes a única conclusão a que logram chegar é a uma não-conclusão. Que não lhes dá o resultado que esperam mas que lhes orienta o caminho para um possível melhor caminho. Confuso? Nem achei. Mas que é preciso uma vontade de ferro para aceitar o erro como uma adição, isso sem dúvida.

Não consigo reproduzir ponto por ponto a explicação da teoria dos Mirror Neurons (no fundo, neurónios que imitam aquilo que identificam como reconhecível, sejam ações ou emoções) e o quanto isso pode ajudar a curar lesões motoras e neurológicas (como o autismo ou a epilepsia) através de uma resposta imediata que os nossos cérebros executam de forma mecânica. Mas percebi que o ser humano, a par dos macacos, funciona por imitação, transcendendo a pura imitação motora e que faz reconhecer os sentimentos de outros no meu próprio corpo.

“How selfish soever man may be supposed, there are evidently some principles in his nature, which interest him in the fortune of others, and render their happiness necessary to him, though he derives nothing from it, except the pleasure of seeing it.” 
― Adam Smith

Afinal, Kant, eu não faço só as coisas para me sentir bem comigo mesma; eu sinto mesmo o outro em relação comigo e da nossa relação depende inclusive o que eu sinto.
Será que a ciência é capaz de justificar a teoria de que o ser humano pode ser mais altruísta do que egoísta? Mesmo que inconscientemente, claro.

O facto de acharmos que algo é correto numa cultura pode derivar apenas da nossa capacidade neurológica de imitar o que conhecemos porque o vemos ser repetido infinitamente à nossa volta!
Se quiserem saber mais sobre esta teoria e sobre o homem que está por detrás dela, leiameste artigo do Jornal i.

Noutra palestra quis o orador explicar-nos que nada na vida, nem na ciência, é inquestionável. E que mesmo teorias que prevaleceram durante anos eventualmente foram refutadas. Por mudança de conceitos, por integração de outros conhecimentos. Uma analogia com a nossa própria vida, no fundo. Algo provado e comprovado pode ser sempre refutado.
Percebi eu que mesmo aquilo em que acreditamos – tirando da equação os valores universais – pode ser alterado. Pelo momento, pelo que vamos recolhendo pelo caminho, pela experiência e pelo convívio com os outros. Porque os outros também fazem parte da equação; mesmo quando somos demasiado arrogantes para o admitir.

Foi uma noite diferente que, ao que consta, acontece mensalmente na Fundação Champalimaud, com palestras e oradores diferentes, que nos podem abrir a cabeça para questões metafísicas que superam a ciência mas que, pelos vistos, também passam por ela.
Se eu era céptica sobre ciência e os cientistas, agora sou um bocadinho menos.

Mais informações sobre este evento e o ciclo de eventos Ar:
Página principal – http://ar.neuro.fchampalimaud.org
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o meu coração mora em Telheiras

Quando não estou por aqui, também escrevo outras coisas para o site do meu bairro do coração: Telheiras. São textos muito pessoais, geralmente escritos sem correções, com as conversas que tenho comigo passadas a palavras para os outros.

Podem ver esses textos na rubrica “Isto é o da Joana”, no site do Viver Telheiras.

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Operação Heróis de Portugal – as entrevistas

Quando voltei de férias já a Operação Heróis de Portugal tinha começado a ser preparada. Não tive tempo para fazer nem o luto pelas minhas férias nem para pastelar. O que no fundo foi bom, porque o regresso foi menos custoso e não me deu para chorar de falta de sol porque… não tive tempo para pensar nele.

No domingo estivemos no ar na emissão online desde as 14:30 à 1:00 da manhã. Foi cansativo, sim, foi confuso, sim… mas foi um grande orgulho fazer parte de uma homenagem tão merecida e tão sentida e foi muito divertido também.

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Com os jornalistas e repórteres de imagem das delegações RTP de Coimbra e Viseu

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Com os youtubers

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Com Nuno Markl

Não quisemos deixar passar o nosso reconhecimento também por todos os que nos têm acompanhado no mundo web, gente que tem voz no online e no digital mas que raramente tem cara. Fiquei a conhecer as mamãs por trás dos blogues de sucesso que vão escrevendo com dicas sobre bebés, a gente que se empenha a escrever sobre televisão, os apresentadores do 5 para a meia-noite e o João Adelino Faria que me falaram sobre os familiares e amigos que fizeram parte de corporações de bombeiros, os jornalistas da RTP que estiveram nos incêndios no Caramulo e tantos outros que não faltaram à chamada.

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Obrigada Ricardo Tomé!

Foi bom, muito bom. Fazia disto, de entrevistar, (parte d)a minha vida.

Para verem todas as entrevistas, cliquem aqui. 

no teatro com Diogo Infante

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O monólogo do Diogo Infante está em cena no São Jorge só até domingo. Ao longo de quase uma hora e meia, o ator dá vida a 8 personagens que nos falam de fé. Dos vários tipos de fé, da forma como podemos encarar a vida, as coisas em que cada um de nós acredita, a partir das quais alteramos a nossa maneira de ver o mundo.
Sempre de uma forma cómica, dá-nos a conhecer vários pontos de vista de uma vida que se quer despreocupada.
Apresenta-nos Armando Silva, o “inspirador”, que quer que procuremos o nosso bebé interior e que o deixemos levar a nossa vida como ele muito bem entender.
Se chegar 15 minutos atrasado ao trabalho e o seu chefe estiver furioso, temos pena! Diga-lhe “o meu bebé interior tinha soninho”!
Páre de pensar no que dizem sobre si! O que dizem sobre si não é da sua conta!!
A verdade é que se deixássemos o nosso bebé interior tomar conta de quase todas as nossas decisões seriamos gente mimada mas bastante mais simples de compreender. Gostamos de fazer parecer aos outros coisas que nem sempre somos. Mas o nosso bebé interior raras vezes é mais do que um egoísta infantil que pode sê-lo porque depende de todos mas ninguém depende dele ou ninguém lhe quer mal.
Há ainda um Taxista preconceituoso, homofóbico, xenófobo e antisemita… mas muito crente a Deus; o Diabo sensual (que claramente me fez crer que o céu não será o meu limite); o Médico, que prescreve comprimidos que fazem mal a tudo – dão impotência, sangramento do nariz, dormência em todas as extremidades do corpo, cegueira, etc – mas que ao menos curam a maleita de que o paciente se queixa; a Estrela de Rock que está “drug free” mas que morre de saudades de coca; o Artista que só quer aparecer; e o Homem que nos aponta como é tão fácil que as notícias estraguem o nosso esforço com todas as preocupações que nos incutem todos os dias, como se tivéssemos de nos arrepender de tudo o que conquistamos porque há outros que não têm o que nós temos.Preocupamo-nos com tudo e sabemos que o mundo continua a girar mesmo quando não estamos. Mas gostamos de pensar que o que nos faz dores na alma é demasiado importante e que quem não quer saber não pode ter coração.

Temos direito a ter o que conquistamos e a aproveitar o bom que a vida nos dá.

“Preocupo-me, logo existo!” está em cena só até domingo, no São Jorge, em Lisboa.
Os bilhetes são 12,50€. Reservem e passem pela página de facebook.

Justin Bieber in the house – Lisboa

Quando cheguei foi como se tivesse de passar pelo final de um festival de verão para entrar no Pavilhão Atlântico. No chão eram garrafas, croquetes, batatas fritas, leites com chocolate, toalhas, mantas e até lanternas de campismo. Não sei onde é que elas guardaram as tendas e os chapéus de chuva, já cheguei atrasada.

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Ainda não tinha passado as portas para o recinto e o barulho era ensurdecedor. Foi como entrar num espetáculo dentro do próprio espetáculo. Nunca vi tantas luzes a piscar, tantos cartazes a serem preparados, tantas t-shirts com mensagens, tanto entusiasmo e tanta antecipação. Mas nunca, nunca na minha vida ouvi gritos como os que ouvi ontem. Gritos fininhos, gritos que ainda hoje me deixaram surda. Era como se a excitação daquelas 8 mil miúdas com uma média de 13 anos passasse para quem quer que entrasse aquelas portas; mesmo que não se compreendesse, mesmo que fosse pura histeria. Que era, foi histeria até ao fim. Nunca pensei ver gente a chorar de felicidade e dor no peito por ter um amor não correspondido por um ídolo em quem nunca tocou ou poderá alguma vez tocar.

Foi até um bocadinho heartbreaking…

Na plateia, pais e filhos

Ao meu lado estava um casal com uma menina que não devia ter mais do que 6 anos. Ela pedia ao pai que lhe pegasse às cavalitas. Queria ver tudo, o que se passava lá à frente, porque é que as outras meninas gritavam. Mas o espetáculo ainda não tinha começado; ele pegou-lhe ao colo para que ela o confirmasse. Depois eu disse-lhe “ainda não começou, quando começar eu digo-te, está bem?”. Ela encolheu-se, mas sorriu-me. A mãe viu a felicidade na cara da filha e deu-lhe um beijinho; o pai começou a fingir que dançava, para que ela não se aborrecesse. Foi bonito de ver.
Depois, uma maldade. No grande ecrã apareceu uma contagem decrescente de 10 minutos que só aumentou a antecipação que quase fazia prever ataques cardíacos precoces. A cada minuto que passava, elas gritavam. Novamente aqueles gritos fininhos que nunca tinha ouvido na vida. A antecipação a crescer…
Não conseguiam conter-se nem sequer quando sabiam perfeitamente que eram os técnicos que estavam em cima do palco.

Ele apareceu como um anjo, caído do céu, com umas asas monstruosas. Foi o delírio total. Mas o delírio total, eu nunca tinha visto nada assim! As raparigas atrás de mim choravam ao mesmo tempo que tiravam fotografias e cantavam a “All around the world” como se fosse o dia mais feliz das suas vidas. E era. O rapaz dos seus sonhos estava mesmo ali, a poucos metros. Podiam vê-lo a dançar, podiam imaginar que ele falava com elas. E ele falou. No final da primeira música pediu-lhe para se calarem um bocadinho para lhes dizer para não atirarem coisas para o palco; “you don’t want me to get injured, do you?”.
Elas acataram, com mais gritinho, menos gritinho.

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O fantástico era que, apesar da histeria, elas se calavam de cada vez que ele parava para falar. Era como um momento sagrado que nenhuma tencionava perder. E ele sabia o poder que tinha.
Tirou a camisola, subiu por cima da plateia numa grua que pedia um holofote para cada lugar da plateia e da bancada para onde ele olhava. Elas gritavam. Gritaram sempre, cantaram sempre, sabiam todas as letras. Ele usou uma go-pro que o projetou no ecrã; mandou um beijo e sorriu e elas gritaram, extasiadas. Sabidão!
Quando uma foi selecionada para ir para o palco com ele na música “One less lonely girl”, as que ficaram em terra choraram de comoção. Ela era a representação de todas elas. E aguentou-se bem, não desmaiou nem nada! Ele apertou-lhe a mão e ela nem conseguia olhá-lo nos olhos.

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Quando eu tinha 14 anos
Quando eu tinha 14 anos também tive os meus ídolos. Não chorei por nenhum deles, mas gostava de os ouvir no meu quarto. Ajudaram-me quando tentava perceber tudo. Não fiz nenhuma tatuagem, mas forrei os meus cadernos com algumas letras. Não gritei mas sentia o que diziam também no coração. Não fui a nenhum concerto cujo bilhete custasse 40€, mas também não tinha um iPhone.

Não entendo quem se vira contra a histeria de miúdas que estão só a seguir o ídolo que escolheram. É só isso. Gritam porque é isso que o peito lhes diz que precisam e ouvem as letras com uma atenção que não se justifica mas que lhes enche os dias. Não fazem mal a ninguém, é incontrolável para elas ser assim.E um dia, como eu, hão-de crescer e hão-de ter outros ídolos. Não faz mal. Por agora é este; e está muito bem.