Doutores e Engenheiros, para que vos quero?

Entrei para a RTP em junho de 2010, estagiária de função, responsável por escrever os textos que acompanhavam cada elemento de programação da RTP1 e RTP2.
Era na verdade demasiado rápida e acabava uma semana inteira de trabalho em dois dias. Foi assim que vim parar às redes sociais e, pela ordem natural das coisas deste género, à Multimédia.

Nunca percebi as ‘estruturas’ e as ‘hierarquias’ que por aqui se arrumam. Não por não estarem bem explicadas; mais porque nunca soube lidar com títulos, ‘doutores’ e ‘engenheiros’, ‘diretores’ e cargos afins. Compreendo os cargos, não compreendo as nomenclaturas. Também nunca fui boa a sentir-me inibida ou proibida de falar com quem quero por não ter intermediário.

Minto: até aos 6 anos foi o meu primo que pediu tudo no café por mim, fossem copos de água ou bolos com creme; passou-me quando percebi que não tinha tempo a perder.

Hoje sei, melhor do que há oito anos, que há cargos que, quando bem ocupados, conseguem mudar o mundo que lhe deram para as mãos. Não pelo ‘doutor’ que se lhes precede, mas pela pessoa que levam dentro.
Ao contrário do que a sociedade nos incute, não são as nomenclaturas a fazer a diferença no nosso respeito e devoção, numa conversa, numa discussão. Não deviam ser. Porque o que faz a diferença no dia-a-dia são as pessoas que não se importam que o título não se lhes vá agarrado, cujo foco é o que fazem com paixão, com vocação.

Essas são as minhas pessoas preferidas, desculpem-me que vo-lo diga. E foram também das que melhor me orientaram, se posso ser muito franca.

Parece-me deveras provinciano – e isto nada tem a ver com a província propriamente dita – que se respeite mais alguém por vir associado a um cargo. Parece-me ridículo que se oiçam mais as ideias de um presidente e de um diretor engravatados quando os zilionários (como o Mark Zuckerberg) usam sweats todos os dias e têm desenvolvido das ideias mais lucrativas das últimas décadas. São CEOs e no entanto duvido que alguém os trate por CEO Zuck todos os dias. Ainda nos falta recuperar desse estigma português dos doutores e engenheiros do antigamente.

Tenho sempre fé na mudança. Que o que chega vem melhor do que o que acabou de partir. Mesmo quando o que parte já foi bom. Sou otimista nessa medida. Mas não consigo deixar de pensar que de cada vez que chega alguém que se quer fazer acompanhar de um título esse título pesará mais do que o bem que traz pelas costas. Só porque o foco não está onde devia, só porque o trabalho vem depois do cargo; e isso desmotiva. Isso é o que faz com que o que chegue venha do passado e que não queira caminhar pelo presente como devia.

De alguma forma o que aí vem acarta um bom pronúncio. Encho-me novamente de otimismo. Porque se não nos enchermos de otimismo paramos e parar não é uma opção.

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