The Handmaid’s Tale: fortíssimo, importantíssimo

The Handmaid’s Tale, diziam-me, tens de ver. Vais gostar, diziam-me.

Falaram-me de uma sociedade de mulheres subjugadas, não aos homens, mas ao Deus dos homens, servas férteis, capazes de resolverem um castigo divino. A favor dos Homens.
Não sabia ao certo ao que ia, na verdade. Sabia que o “eu gostar” me daria certamente a volta aos fígados. Mas não estava preparada para a escuridão daqueles quartos, daquelas mulheres e da realidade – de hoje e não de um passado medieval – que lhes concederam.
The Handmaid’s Tale é a história de mulheres escolhidas pelo sistema para se tornarem parideiras de serviço. Chamam-lhes servas e não têm direito a mais do que um nome de pertença – Offred, no caso da protagonista. Of Fred. De Fred, o dono a que foi alocada, o Comandante que a violará enquanto ela se fica, quieta, calada, contando os minutos para o fim, desejando que na barriga se lhe crie um bebé para que possa ser mais bem cuidada.
A realidade que nos é mostrada é de outro mundo, mas é deste tempo. É ficção, uma distopia exasperante que me esmagou o coração, que ainda só vai no quarto episódio do quanto me pode chocar. É o que me dizem. Eu já me sinto chocada o suficiente. E no entanto há algo em mim, de negro e desesperado, que quer ver o resto, como se pudesse avaliar do pessimismo e otimismo de uma realidade que não existe, que nunca chegará por cá. Se quisermos acreditar com muita força nisso.
E as mulheres inférteis desses Comandantes, piores do que eles, violadoras atentas da dignidade de outras mulheres que têm um útero melhor do que o delas. Detestadas, insultadas, destratadas e guardadas para parir sem parar, sem um pio, sem uma palavra, sem uma consideração maior.
Que coisa horrível que ali existe. Que realidade do terror. Como é que se consegue imaginar uma história destas?

Mulheres que por o serem são primeiro dispensadas do trabalho, privadas do dinheiro do trabalho que tinham, tornadas propriedade dos seus homens e depois dos homens ricos das outras. Mulheres-objeto. À vista de todos. Sem escolha e sem sorte.
Continuo chocada. E sonhei com isto.
É assim tão impossível que tudo isto pudesse acontecer? Com homens como Donald J. Trump e Vladimir Putin no poder? Tenho mais fé em tribos africanas, aborígenes sem Deus do que nesses países tão cheios de leis aprovadas por maiorias de homens e mulheres cínicos, desconectados da realidade, privilegiados e despeitados.
Quem ensinou a mulher a acreditar que é um ser menor? Quando é que nos ensinaram com tanto sucesso que somos menores por termos menos força braçal, que somos mais usáveis, descartáveis, condenáveis, desautorizáveis? Porque é que somos histéricas quando lutamos, eles fortes e focados, porque é que não somos decididas mas antes obcecadas?
Porque é que somos tudo o que é mau e ridículo e porque é que eles são tudo o que puderem ser?
O feminismo continua a ser importante porque, por mais anos, religiões, sociedades que se criem e se crêem evoluídas, continuam a dar-nos tudo às migalhas, como quem nos faz o favor de nos conceder o desconto dos malucos.

Faltam-me muitos episódios. Mas queria só partilhar. Vejam.

HandmaidsTail

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Doutores e Engenheiros, para que vos quero?

Entrei para a RTP em junho de 2010, estagiária de função, responsável por escrever os textos que acompanhavam cada elemento de programação da RTP1 e RTP2.
Era na verdade demasiado rápida e acabava uma semana inteira de trabalho em dois dias. Foi assim que vim parar às redes sociais e, pela ordem natural das coisas deste género, à Multimédia.

Nunca percebi as ‘estruturas’ e as ‘hierarquias’ que por aqui se arrumam. Não por não estarem bem explicadas; mais porque nunca soube lidar com títulos, ‘doutores’ e ‘engenheiros’, ‘diretores’ e cargos afins. Compreendo os cargos, não compreendo as nomenclaturas. Também nunca fui boa a sentir-me inibida ou proibida de falar com quem quero por não ter intermediário.

Minto: até aos 6 anos foi o meu primo que pediu tudo no café por mim, fossem copos de água ou bolos com creme; passou-me quando percebi que não tinha tempo a perder.

Hoje sei, melhor do que há oito anos, que há cargos que, quando bem ocupados, conseguem mudar o mundo que lhe deram para as mãos. Não pelo ‘doutor’ que se lhes precede, mas pela pessoa que levam dentro.
Ao contrário do que a sociedade nos incute, não são as nomenclaturas a fazer a diferença no nosso respeito e devoção, numa conversa, numa discussão. Não deviam ser. Porque o que faz a diferença no dia-a-dia são as pessoas que não se importam que o título não se lhes vá agarrado, cujo foco é o que fazem com paixão, com vocação.

Essas são as minhas pessoas preferidas, desculpem-me que vo-lo diga. E foram também das que melhor me orientaram, se posso ser muito franca.

Parece-me deveras provinciano – e isto nada tem a ver com a província propriamente dita – que se respeite mais alguém por vir associado a um cargo. Parece-me ridículo que se oiçam mais as ideias de um presidente e de um diretor engravatados quando os zilionários (como o Mark Zuckerberg) usam sweats todos os dias e têm desenvolvido das ideias mais lucrativas das últimas décadas. São CEOs e no entanto duvido que alguém os trate por CEO Zuck todos os dias. Ainda nos falta recuperar desse estigma português dos doutores e engenheiros do antigamente.

Tenho sempre fé na mudança. Que o que chega vem melhor do que o que acabou de partir. Mesmo quando o que parte já foi bom. Sou otimista nessa medida. Mas não consigo deixar de pensar que de cada vez que chega alguém que se quer fazer acompanhar de um título esse título pesará mais do que o bem que traz pelas costas. Só porque o foco não está onde devia, só porque o trabalho vem depois do cargo; e isso desmotiva. Isso é o que faz com que o que chegue venha do passado e que não queira caminhar pelo presente como devia.

De alguma forma o que aí vem acarta um bom pronúncio. Encho-me novamente de otimismo. Porque se não nos enchermos de otimismo paramos e parar não é uma opção.