Selfie Journalism: a verdade que não se esconde

Faço parte de uma geração que procura a (sua) verdade das coisas, incessantemente e curiosamente. Sou também, e gloriosamente, do tempo em que todos podem ter acesso a informação imediata, atualizada ao minuto, por profissionais de excelência e por profissionais do clickbait e do sensacionalismo. Andamos todos em busca do Vale Encantado da informação desprovida de artifícios, aquela do imediato, sem filtro e sem subterfúgios. Partilhamo-la antes de a confirmarmos porque nos parece melhor uma informação errada do que informação nenhuma.

É claro para mim que o jornalismo como o conhecemos mudou e que as pressões por pageviews minam o trabalho de quem outrora perdia mais tempo com investigações. Mas sou otimista: acredito que esta mudança nos está a dar espaço para a criação de um jornalismo de proximidade aberto, novo, real o mais possível.

Chamem-lhe selfie journalism – ou jornalismo-selfie – sem desprimor. Um jornalismo mais perto da realidade do que qualquer outro, reativo, empolado, não-editado e superficial algumas vezes, mas útil e imediato. Feito por pessoas que estão no local, que têm as emoções que o jornalista não pode ter, que não consegue incutir numa peça isenta de considerações mais ou menos óbvias, mas que se querem objetivas.

Este novo jornalismo apresenta-se como uma espécie de one-band man storytelling, apoiado nas redes sociais que nos pedem Histórias todos os dias. O telemóvel – móvel como mais nenhuma ferramenta – já consegue fazer as vezes de câmara, microfone, editor de vídeo, distribuidor de conteúdo. É inegável.
Embora os veteranos possam encarar este modo de fazer notícias como infantil, amador e desrespeitoso para o jornalismo tradicional, é inegável que esta verdade se tornou mais absoluta do que os artigos de fundo sobre famílias envolvidas nos acontecimentos, entrevistas acordadas e imagens editadas. As redes sociais não pedem a organização de outrora, sequer o cuidado estético a que alguns de nós almejamos.

We’re forgiving, we just want a good story.

Ser jornalista sempre contou com os inputs dos protagonistas das histórias que se pretendia contar. Isso não mudou. Mudou o meio através do qual nos chegam essas histórias. Qualquer pessoa pode ser um selfie journalist.
As redes sociais não têm de ser repositórios de fake news e comentários sobre assuntos sem profundidade. Embora consiga entender o quão difícil possa ser ignorar o fogo de artifício que por lá vai, algumas redes devem ser usadas para contar mais e melhores histórias. Chamar a atenção para determinados assuntos, contar na 1.ª pessoa assuntos demasiado graves para serem esquecidos, mas demasiado sensíveis para serem compilados em edições.

Os conteúdos produzidos em telemóvel têm três vezes mais adesão do que o conteúdo produzido por um broadcaster. É mais rápido, mais imediato e, sobretudo, mais direcionado. O público-alvo procura aquilo que quer ver, envolve-se no conteúdo que lhe fala à personalidade e perde-se facilmente em assuntos relacionados.
Se o on-demand ganhou importância e destronou os clubes de vídeo, a busca de fontes próximas tornou-se bastante natural também. Todos temos “aquele-amigo-que-estava-lá-que-conhece-alguém-que”. Acabamos a pegar no telefone e a ligar-lhe, para ouvir de quem confiamos o que realmente aconteceu.

O futuro das notícias passa também pela agregação dos vários pontos de vista, conteúdos criados pelos próprios protagonistas, sem curadoria, sujeitando-se às várias camadas de considerações pessoais sobre um assunto. Daí, quem lê e quem procura junta-se a um lado da barricada que mais lhe fale aos princípios.

As pessoas não querem multicâmara, querem selfie journalism. 

É lógico que a contextualização dos profissionais redatores de notícias é essencial para a compreensão de um tema mais vasto do que o que o imediato propõe. O suspense e o engagement, no entanto, são aditivos e é isso que conduz a que cada vez mais procuremos o que não tem filtro para entender uma história.

É o assunto que importa. Não o meio, não a voz de quem o relata, mas a persona de quem o vive numa pele irrepetível. É esta no fundo a selfie que realmente pode fazer diferença.

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Os dias contados do Buzz

O Buzz foi um presente inesperado. Deu-me dores de barriga, ansiedades várias. Fez-me questionar se estaria à altura para falar na rádio – um meio tão sério! De respeito! -, eu que sou tão atabalhoada a expressar ideias, que me perco em devaneios, que posso falar sem parar sem dizer nada de importante.
Morou em vários horários, teve vários interlocutores de peso na Antena3. Uns davam-lhe muita atenção, outros faziam as suas vidas nesses dois minutos de muita intensidade radiofónica, arrancada do online por um bocadinho.

O online pode ser cruel. Melhor, o online é cruel. A rádio é doce e contemplativa.
Quantos buzz’s dei com os quais não concordava. Quanta atenção se deu e se dá a notícias que não importam, que não significam, que não têm sumo nenhum.
Criei sumo (tentava). Expliquei por que não concordava (mesmo que não fosse isso o que me era pedido). Achei que ninguém ouvia, às vezes. Recebi sugestões, tweets, mensagens de amigos que gostavam de ouvir a minha voz a meio da tarde, inesperadamente. Havia sim alguém a ouvir; (h)ouve sempre.
Tive dias em que não havia assunto. Buzz’s praticamente inventados em cima do joelho. Os que tive de gravar nunca me saíram tão bem. Gosto dessa comunicação com quem estivesse do outro lado do ecrã do estúdio; mesmo que distraído.
Foram mais dias do que os que me lembro a sentar-me à frente daquele microfone e a sorrir para quem não me via. A dar a voz ao meu corpo e não o contrário.

E foi bom.

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O Buzz nasceu num formato particular, de reação à realidade. Pouco a pouco, o mundo em que vivemos tornou-se, todo ele, isso mesmo.
Talvez seja por isso que sinto que é tempo de sair para a rua e procurar novos buzz’s: aqueles que saiam de mim. Mais positivos, talvez. Menos imediatos talvez. Mais interessantes, espero.

O Buzz vai de férias por tempo indeterminado no final desta semana.

Obrigada Ricardo Tomé. Ao JAL, ao Rui Pêgo. Ao Luís Oliveira, ao Tiago Ribeiro, à Raquel Bulha, à Ana Galvão, ao Rui Estevão, à Joana Marques e à Joana Dias. Ao Nuno Reis.
Aos que se encheram de paciência para me ouvir quando refilei.
À Antena3.
I’ll be back.