Os “bairros marginais” têm milhares de visualizações no YouTube

Os bairros críticos/marginais/perigosos são uma parte do desenho de Lisboa que tentamos ignorar. Estão à margem de nós, são uma outra vida, vivida em guetos, deslocada do nosso quotidiano. Têm etnias e cores diferentes, cheiros diferentes, têm mais gente do que aquela que vem nos censos. Têm mais vida também e mais música. E as culturas que aí moram são incompreensíveis para nós que vivemos fora deles, os dialectos assustam-nos, os olhares também.

rap

A minha irmã trabalhou numa escola num desses bairros, a dar aulas de inglês a miúdos de 2.º e 4.º anos. Miúdos sobretudo de etnia cigana, que se pegavam com a minoria negra por razão nenhuma, possivelmente porque a cor os torna distantes. Gritavam uns com os outros e batiam-se, cuspiam ofensas, palavrões maiores do que a sua compreensão das palavras mais banais (como ‘por favor’ ou ‘obrigado’), num vernáculo absurdamente chocante.

A bem da verdade, o inglês quase nunca existiu entre eles. Ela era o elemento agregador que os miúdos precisavam para se manterem numa sala de aula durante uma hora, mas pouco mais. Ela voltava com a cabeça em água, depois de passar tempo demais a tentar ensiná-los sobre as noções de respeito pelo próximo e concentração.

Quando queria conquistá-los, dizia que podiam escolher a música que queriam ouvir no final da aula, se se portassem bem. E eles acatavam, entusiasmados, mesmo que ainda mandassem bitaites ressabiados que garantiam – questionando sem questionar – que as professoras nunca cumpriam o que prometiam. Ela cumpria.

É preciso explicar que a minha irmã adora e ouve hip hop e rap português. Vai a concertos, conhece o background dos rappers, sabe as letras, os videoclips. E até ela ficava impressionada quando as músicas que escolhiam aqueles miúdos de 7 ou 9 anos falavam de violência, mostravam violência… e somavam milhares de visualizações.
Explicou-me ela na altura que o hip hop português que não figura nas tabelas de mais vendidos da Fnac tem uma legião de fãs avassaladora. Fui investigar. E é mesmo verdade.
E não falo desse hip hop violento de que os miúdos tanto gostavam mas do hip hop amador que tem histórias para contar. Que fala de vidas que eu não conheço.

É precisamente sobre este fenómeno que fala esta palestra do TEDx, pela voz de António Brito Guterres empenhado em fazer ver à sociedade em geral os impactos sociais e culturais das políticas de realojamento. Vale muito a pena ver.

 

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