Júlio Isidro: um profissional como já não há

Dizem-me que sou uma alma antiga. Chamam-me assim porque, embora trabalhe com tecnologias, nem sempre lhes dou toda a atenção que elas pedem, porque ando sempre à procura de silêncio. Sou uma dessas pessoas ansiosas com a falta de tempo, stressadas com a criatividade aprisionada em prazos insensatos.
Na final do Festival da Canção tive a feliz oportunidade de entrevistar (e ser entrevistada) por Júlio Isidro. Disse-me ele que se sentia contente por poder tornar a apresentar um programa tão nobre como o Festival e por estar ao lado dos colegas mais novos. Por outro lado, embora não tenha ignorado o poder e importância das tecnologias, disse-me algo que me deixou a pensar: “Para se fazer arte é preciso ter tempo”.

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Júlio Isidro foi um ícone do seu tempo e tenho realmente pena que não o seja agora também, para os mais novos. Tenho algum pudor em aceitar que a vida pública prefere ir buscar rostos jovens, muitas vezes sem talento, do que gente que sabe realmente o que está a fazer. Este foi o homem que descobriu talentos como o António Variações ou o Herman José. Este foi o homem que deu a oportunidade de lançamento a tantos dos que vieram a fazer história na História da arte popular em Portugal.
E quando o ouvi falar, com uma serenidade e gentileza que já não existe em lado nenhum, encolhi-me de enternecimento e concordância, dentro dos meus 28 anos e dos meus quase cinco anos de RTP.

Hoje, Júlio Isidro foi chamado para apresentar, sozinho, o Agora Nós, porque o José Pedro Vasconcelos estava de férias e a Tânia Ribas de Oliveira ficou inesperadamente doente. Foi, ao contrário do que se possa pensar, uma lufada de ar fresco ouvir a voz e a calma de Júlio Isidro, que aceitou salvar a manhã com apenas uma hora de antecedência sobre o início do programa na emissão da RTP1.
Arrisco-me a dizer que são muito poucos os profissionais que o fariam tão bem e com tanta segurança, com o ânimo próprio de quem há muito que o faz e que o deveria fazer tão mais. Sem desprimor para os apresentadores que, merecidamente, nos entram pela casa dentro via televisor, levando nos ombros programas diários tão exigentes como o Agora Nós ou o Há Tarde ou semanais em horário nobre.
Mas hoje o dia é de homenagem a Júlio Isidro e aos 55 anos de carreira que lhe caem tão bem e que nos ensinam tanto sobre a vontade de querer fazer o que quer que seja no imediato… mas com a calma de quem se preparou a vida toda.

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Saber para onde se vai

Sempre soube para onde ia. Sempre soube o que queria. Sempre soube e acabei sempre por ir. Porque no ir, no fazer, no decidir e no ouvir é que se vive. E é preciso ter a coragem para mudar o mundo em cada segundo que nos apercebemos de qual é o sítio onde queremos chegar.