nunca é tarde para uma aventura

A vida aqui está a mudar. As pessoas estão a ir embora. Cada uma com as suas motivações mas quase todas com dinheiro suficiente para realizarem alguns sonhos. Muitas estão a ir por isso; sem objetivos, sem proveito próximo, sem pensar no que as espera quando os números se tornarem cada vez mais baixos.
Hoje despedi-me de uma amiga que tem tudo de especial. Tem uma magia de miúda nos olhos, mesmo que o Cartão do Cidadão já a considere de idade respeitável. Dizem-nos por todo o lado que aos 30 os sonhos devem já ser pouco mais do que ter filhos, uma casa boa, conforto, poucos amigos. Ela ignora isso tudo. Casou-se há um par de anos, veste-se de cores garridas e saias largas que podiam ser proibitivas para o trabalho e repete e repete que a cor preferida dela é o verde. Não conta dos males que lhe passam na vida mas, se os contou, viu-se nos olhos quando quase chorava. Tem um companheiro que em tudo a acompanha e que decerto lhe dará a mão até ao fim dos dias.
Porque para as pessoas como a minha amiga o fim dos dias não tem nada de assustador. Não tem nada de assustador a idade, os sonhos que ainda se sonham, a vontade de ir, só por ir, para se aprender a ser mais feliz.
Por isso, hoje, é o último dia da minha amiga por aqui.
Já não vai ter de picar o ponto de entrada e saída porque se vai mudar para o campo – com poucas malas e alguma bagagem, no seu jeito “esquisito” de ser e de levar a vida.
Os sonhos de cada um podem ser incompreensíveis para todos. Mas que bom é ver que alguém ainda tem a coragem de se lançar ao mundo, com o amor de uma vida e sem a mínima dúvida de que os amigos, estejam onde estiverem, aparecerão sempre para ajudar.
Boa sorte, Gi. Vais ser muito feliz.
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ouvir sobre neurociência na Fundação Champalimaud

Sou pelas ciências sociais e pelas palavras porque é através delas que consigo ver-me livre de sentimentos aprisionados. A exatidão das coisas dá-me alguns arrepios, embora seja das pessoas mais racionais que conheço. Não sonho porque tenho a superstição de que pode tudo correr mal ou que, caso não aconteça, me custe demasiado a aceitar o insucesso.
Ontem, no entanto, fiz parte de um momento que em tudo parecia desindicado para mim. Com cientistas curiosos que se sentaram à minha volta e que prontamente me deram uma chapada de luva branca acerca de todos os meus preconceitos. Fui a uma conferência sobre neurociência, onde três oradores me souberam tornar curiosa sobre coisas que não são mais do que analogias da sociedade que todos vamos construindo.

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Aprendi eu que a ciência se debate com dois estados de alma que desafiam positivamente os cientistas: a paciência e a frustração. E que trabalham com hipóteses que experimentam até à exaustão. Não raras vezes a única conclusão a que logram chegar é a uma não-conclusão. Que não lhes dá o resultado que esperam mas que lhes orienta o caminho para um possível melhor caminho. Confuso? Nem achei. Mas que é preciso uma vontade de ferro para aceitar o erro como uma adição, isso sem dúvida.

Não consigo reproduzir ponto por ponto a explicação da teoria dos Mirror Neurons (no fundo, neurónios que imitam aquilo que identificam como reconhecível, sejam ações ou emoções) e o quanto isso pode ajudar a curar lesões motoras e neurológicas (como o autismo ou a epilepsia) através de uma resposta imediata que os nossos cérebros executam de forma mecânica. Mas percebi que o ser humano, a par dos macacos, funciona por imitação, transcendendo a pura imitação motora e que faz reconhecer os sentimentos de outros no meu próprio corpo.

“How selfish soever man may be supposed, there are evidently some principles in his nature, which interest him in the fortune of others, and render their happiness necessary to him, though he derives nothing from it, except the pleasure of seeing it.” 
― Adam Smith

Afinal, Kant, eu não faço só as coisas para me sentir bem comigo mesma; eu sinto mesmo o outro em relação comigo e da nossa relação depende inclusive o que eu sinto.
Será que a ciência é capaz de justificar a teoria de que o ser humano pode ser mais altruísta do que egoísta? Mesmo que inconscientemente, claro.

O facto de acharmos que algo é correto numa cultura pode derivar apenas da nossa capacidade neurológica de imitar o que conhecemos porque o vemos ser repetido infinitamente à nossa volta!
Se quiserem saber mais sobre esta teoria e sobre o homem que está por detrás dela, leiameste artigo do Jornal i.

Noutra palestra quis o orador explicar-nos que nada na vida, nem na ciência, é inquestionável. E que mesmo teorias que prevaleceram durante anos eventualmente foram refutadas. Por mudança de conceitos, por integração de outros conhecimentos. Uma analogia com a nossa própria vida, no fundo. Algo provado e comprovado pode ser sempre refutado.
Percebi eu que mesmo aquilo em que acreditamos – tirando da equação os valores universais – pode ser alterado. Pelo momento, pelo que vamos recolhendo pelo caminho, pela experiência e pelo convívio com os outros. Porque os outros também fazem parte da equação; mesmo quando somos demasiado arrogantes para o admitir.

Foi uma noite diferente que, ao que consta, acontece mensalmente na Fundação Champalimaud, com palestras e oradores diferentes, que nos podem abrir a cabeça para questões metafísicas que superam a ciência mas que, pelos vistos, também passam por ela.
Se eu era céptica sobre ciência e os cientistas, agora sou um bocadinho menos.

Mais informações sobre este evento e o ciclo de eventos Ar:
Página principal – http://ar.neuro.fchampalimaud.org