Tivoli

Não sou atriz, artista, ginasta ou bailarina. Fui e sou, mais do que tudo o que possa ter sido, espectadora. Emocionei-me quando no palco desfilaram os sonhos e as vozes dos que queriam pertencer àquelas tábuas, aplaudi de orgulho quando ouvi as guitarras e os sapatos com pregos a rasgarem o soalho, os vestidos de bolas a pintarem a música. Aprendi tudo sobre os camarins e os camarotes e encontrei os melhores ângulos para as câmaras. Ri e também chorei, cansei-me e surpreenderam-me.
Talvez seja inexplicável e talvez pareça um amor maior do que aquele  que tinha direito. Mas o Tivoli será sempre o teatro onde nunca me cansarei de voltar. Deixei lá o meu coração. Obrigada.

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Justin Bieber in the house – Lisboa

Quando cheguei foi como se tivesse de passar pelo final de um festival de verão para entrar no Pavilhão Atlântico. No chão eram garrafas, croquetes, batatas fritas, leites com chocolate, toalhas, mantas e até lanternas de campismo. Não sei onde é que elas guardaram as tendas e os chapéus de chuva, já cheguei atrasada.

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Ainda não tinha passado as portas para o recinto e o barulho era ensurdecedor. Foi como entrar num espetáculo dentro do próprio espetáculo. Nunca vi tantas luzes a piscar, tantos cartazes a serem preparados, tantas t-shirts com mensagens, tanto entusiasmo e tanta antecipação. Mas nunca, nunca na minha vida ouvi gritos como os que ouvi ontem. Gritos fininhos, gritos que ainda hoje me deixaram surda. Era como se a excitação daquelas 8 mil miúdas com uma média de 13 anos passasse para quem quer que entrasse aquelas portas; mesmo que não se compreendesse, mesmo que fosse pura histeria. Que era, foi histeria até ao fim. Nunca pensei ver gente a chorar de felicidade e dor no peito por ter um amor não correspondido por um ídolo em quem nunca tocou ou poderá alguma vez tocar.

Foi até um bocadinho heartbreaking…

Na plateia, pais e filhos

Ao meu lado estava um casal com uma menina que não devia ter mais do que 6 anos. Ela pedia ao pai que lhe pegasse às cavalitas. Queria ver tudo, o que se passava lá à frente, porque é que as outras meninas gritavam. Mas o espetáculo ainda não tinha começado; ele pegou-lhe ao colo para que ela o confirmasse. Depois eu disse-lhe “ainda não começou, quando começar eu digo-te, está bem?”. Ela encolheu-se, mas sorriu-me. A mãe viu a felicidade na cara da filha e deu-lhe um beijinho; o pai começou a fingir que dançava, para que ela não se aborrecesse. Foi bonito de ver.
Depois, uma maldade. No grande ecrã apareceu uma contagem decrescente de 10 minutos que só aumentou a antecipação que quase fazia prever ataques cardíacos precoces. A cada minuto que passava, elas gritavam. Novamente aqueles gritos fininhos que nunca tinha ouvido na vida. A antecipação a crescer…
Não conseguiam conter-se nem sequer quando sabiam perfeitamente que eram os técnicos que estavam em cima do palco.

Ele apareceu como um anjo, caído do céu, com umas asas monstruosas. Foi o delírio total. Mas o delírio total, eu nunca tinha visto nada assim! As raparigas atrás de mim choravam ao mesmo tempo que tiravam fotografias e cantavam a “All around the world” como se fosse o dia mais feliz das suas vidas. E era. O rapaz dos seus sonhos estava mesmo ali, a poucos metros. Podiam vê-lo a dançar, podiam imaginar que ele falava com elas. E ele falou. No final da primeira música pediu-lhe para se calarem um bocadinho para lhes dizer para não atirarem coisas para o palco; “you don’t want me to get injured, do you?”.
Elas acataram, com mais gritinho, menos gritinho.

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O fantástico era que, apesar da histeria, elas se calavam de cada vez que ele parava para falar. Era como um momento sagrado que nenhuma tencionava perder. E ele sabia o poder que tinha.
Tirou a camisola, subiu por cima da plateia numa grua que pedia um holofote para cada lugar da plateia e da bancada para onde ele olhava. Elas gritavam. Gritaram sempre, cantaram sempre, sabiam todas as letras. Ele usou uma go-pro que o projetou no ecrã; mandou um beijo e sorriu e elas gritaram, extasiadas. Sabidão!
Quando uma foi selecionada para ir para o palco com ele na música “One less lonely girl”, as que ficaram em terra choraram de comoção. Ela era a representação de todas elas. E aguentou-se bem, não desmaiou nem nada! Ele apertou-lhe a mão e ela nem conseguia olhá-lo nos olhos.

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Quando eu tinha 14 anos
Quando eu tinha 14 anos também tive os meus ídolos. Não chorei por nenhum deles, mas gostava de os ouvir no meu quarto. Ajudaram-me quando tentava perceber tudo. Não fiz nenhuma tatuagem, mas forrei os meus cadernos com algumas letras. Não gritei mas sentia o que diziam também no coração. Não fui a nenhum concerto cujo bilhete custasse 40€, mas também não tinha um iPhone.

Não entendo quem se vira contra a histeria de miúdas que estão só a seguir o ídolo que escolheram. É só isso. Gritam porque é isso que o peito lhes diz que precisam e ouvem as letras com uma atenção que não se justifica mas que lhes enche os dias. Não fazem mal a ninguém, é incontrolável para elas ser assim.E um dia, como eu, hão-de crescer e hão-de ter outros ídolos. Não faz mal. Por agora é este; e está muito bem.