como criar confiança ou porque é que ser autêntico ainda dá tanto medo

Acredito que o que somos na vida deve ser em tudo semelhante ao que somos no trabalho. A forma como nos apresentamos, como apresentamos as ideias que temos, como nos relacionamos com os outros – todos os outros e não só os que nos servem para algo – conta a todos sobre aquilo que nós somos.

Não raras vezes esquecemo-nos que o melhor que podemos dar aos outros é a nossa atenção. A empatia e a curiosidade ficam tantas vezes pelo caminho por acharmos que, se não passarmos tanto tempo a explicar o que somos, nunca teremos um papel relevante nas vidas dos outros.

Não acho que seja verdade. Aquilo que nos liga a todos é o espaço para ouvir. E o que nos conecta são as ideias que partilhamos. Quanto mais maturado for o que partilhamos, mais espaço teremos para o ir melhorando. É que as melhores ideias não chegam já perfeitas; precisam de outras opiniões, de participações.

Por último, a autenticidade. Ontem, numa entrevista que me fizeram para o “Onde, quando e como eu quiser”, quis sublinhar over and over aquilo em que mais acredito: sermos (de) verdade atrai. Sermos verdadeiros, quase transparentes, sermos reais, sermos falíveis e autênticos torna-nos interessantes. Então por que passamos tanto tempo a tentar ser tudo o que esperam de nós? Será que achamos que somos assim tão maus? E, se acharmos, não seria mais inteligente afinarmos algumas coisas do que passarmos o dia a fingir que não somos nada disso?

Hoje, ouvi uma TED Talk que fala sobre confiança. Como criar confiança, sobretudo depois de a quebrar.

Empatia. 
Lógica.
Autenticidade.

 Wear whatever makes you feel fabulous. Pay less attention to what you think people want to hear from you and far more attention to what your authentic, awesome self needs to say. And to the leaders in the room, it is your obligation to set the conditions that not only make it safe for us to be authentic but make it welcome, make it celebrated, cherish it for exactly what it is, which is the key for us achieving greater excellence than we have ever known is possible.

Eu também sou uma mulher de opiniões fortes. Também me sinto diferente num espaço em que as pessoas me pareçam desinteressadas na renovação, na inovação e no entusiasmo. Já desisti de algumas, confesso. Mas antes lutei tudo o que podia. E dessas lutas não me arrependo.

Se algumas coisas que disse a uma certa altura me pareceram erradas, deslocadas e chutadas para um canto, traz-me no entanto alguma paz saber que não sou a única a acreditar no poder da empatia e da autenticidade. Nunca cheguei a questionar a ilógica de algumas pessoas; no fundo acabei a acreditar que eu é que estava errada.

É bom saber que há por aí quem pense no mesmo sentido que eu.
E vocês, que pensam vocês?

 

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algo novo por 30 dias: who’s with me?

Sempre que passo demasiado tempo no sofá, levanto-me triste.
Não interessa se aquilo a que assisti foi um filme para rir, um documentário super interessante ou uma série imperdível. Invariavelmente, sempre que fico por ali mais do que duas horas, levanto-me com o peito pesado e um sentimento de perda.

Sofro de uma ansiedade igual à de tantas outras pessoas. Não sou mais especial por isso nem me considero mais ativa por isso. Quando chego a casa são muito raras as vezes em que descanso onde quer que seja.
Desconfio que sofro de um Síndrome Dona de Casa, que me acompanha desde que me lembro. Padeço também do Síndrome Capricórnio, que reúne todas as pessoas que optam por fazer os trabalhos de casa (TPCs) antes de irem brincar. Já adulta, continuo a encarar as responsabilidades da mesma maneira: primeiro o que é obrigatório, depois o opcional.

O problema disto é que tudo o que serve para absolutamente nada e constitui puro lazer é quase invariavelmente opcional para mim.

Sentar-me no sofá a ver uma série ou um filme nunca foi uma ação natural. Nunca figurou na minha lista de to-dos e não constitui importância suficiente para largar a mania de ter tudo arrumado, a loiça lavada, a roupa arrumada nas gavetas, o cão passeado. Quando cedo e me sento, horas a mais, a ver o que quer que seja, aprecio o que aprendo, mas levanto-me com a sensação de inutilidade completa.

É mentira. Assistir a séries, documentários, teorias, histórias e filmes não é tempo perdido. Tento convencer-me, no entanto, que é uma espécie de pesquisa essencial para ter novas ideias.
Só que aparentemente não resulta…

A ansiedade que me acompanha deixa-me a cabeça cheia de coisas. Ainda agora, que estou a escrever isto, estou a pensar no quanto deveria estar a rever as duas primeiras entrevistas já editadas para o projeto contra o preconceito e que em vez disso estou aqui a perder tempo.

Tudo cria ansiedades desmedidas porque, let’s face it, há sempre alguma coisa que devíamos estar a fazer e não estamos.

Na semana passada, para contornar isso, obriguei-me a comprar uma agenda. Pensei que se tivesse as coisas alinhadas verdadeiramente em dias específicos que ajudaria a escoar as ideias que me moram por aqui.

Ajudou alguma coisa. Mas ainda assim…

Hoje ouvi o podcast TED Radio Hour que reunia várias histórias sobre “A Better You”. Entre elas, uma proposta simples do Matt Cutts que propõe que façamos algo que sempre quisemos fazer por 30 dias. A ideia é criar novos hábitos: apagar hábitos antigos e manter ou rejeitar definitivamente outros.

A premissa é nunca ir dormir sem ter cumprido aquilo que delineámos. E, ao final dos 30 dias, ponderar se queremos manter esse hábito ou, se por outro lado, não queremos repeti-lo ou preferimos moderá-lo.

O primeiro desafio dos 30 dias, diz o Matt Cutts, pode ser tirar uma fotografia todos os dias.

“Instead of the months flying by, forgotten, the time was much more memorable. This was part of a challenge I did to take a picture every day for a month. And I remember exactly where I was and what I was doing that day.”

Parece-me fácil.

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Não sei até que ponto é que um desafio destes pode, por outro lado, contribuir para aumentar ainda mais a tal ansiedade de que falava. Se já não sei estar só a aproveitar os dias sem integrar neles todas as coisas a que me obrigo por pura responsabilidade, não será isto só mais uma coisa a adicionar à lista?

Ainda assim, gostava de experimentar.
Percebi que talvez se tiver companhia possa tornar-se num jogo, em vez de numa obrigação, num momento de agenda.

Por isso a minha proposta é simples: quem quer começar este jogo comigo?

 

escapar do que esperam de nós

Hoje recebi um telefonema tão bom, tão importante, que me vieram as lágrimas aos olhos.

No dia em que partilhei o artigo em busca de pessoas anti-preconceito recebi uma onda de boa vontade, bem querer e coragem que nunca esperei. Os formulários foram chegando, sem idade, só com histórias que mais tarde ganharam caras e datas de nascimento. Chegaram sobretudo vindos de mulheres. Questionei-me sobre se os homens não estão sujeitos a preconceito, se são melhores a relativizar ou se lhes foi incutido que a partilha de histórias do género os perpetua como gente fraca ou queixosa, se as queixas são mais livres para as mulheres. Mas adiante.

Tenho pouco mais de 30 anos e trabalho na RTP há 8 anos e meio. Numa empresa com a história desta, ter luz verde para um projeto para o online – que pretendia dar a conhecer as caras que suportam histórias maldosas mas que sabem superá-las, esclarecê-las e dar força ao positivismo que reina em cada um desses rótulos – não foi fácil, célere ou sobretudo prioritário.

Tive reuniões em que a maior parte das pessoas à mesa eram homens. Mais velhos, de gerações muito distantes da minha, que me olhavam com algum carinho, alguma benevolência mas, muito mais do que isso, com curiosidade. Da boa. Ouviram as minhas histórias – decalcadas dos formulários, das vossas – com algumas perguntas, alguma perplexidade. Mas no fim, sem excepção, todos se despediam com uma cara menos fechada, com perguntas sobre o que desconheciam e garantiam que tinham ficado ansiosos por ver o projeto em marcha.

Hoje, depois das entrevistas terminadas, recebi um telefonema do produtor, que assistiu a algumas destas conversas por inteiro.

Queria dar-te os parabéns. Escolheste muito bem os convidados. E até em conversa com [o realizador] comentámos que há coisas que tínhamos imaginado de uma forma diferente, pessoas que tínhamos imaginado de forma diferente, e acabámos por aprender muito, saímos das suposições que tínhamos sobre alguns assuntos. Por isso, parabéns. Estou desejoso de ver o resultado final.

O próprio realizador comentou comigo, enquanto gravávamos, que há coisas que, não sendo da sua geração e não tencionando aplicá-las para si, passaram a ter uma nova forma naquilo que depreendia do assunto.

É que vê-se que estas pessoas são esclarecidas. Elas não estão a pedir desculpa, nem sequer estão a pedir que aceitemos. Estão só a explicar-se. E explicam-se bem e acabam por desdramatizar uma série de coisas. São só pessoas.

Podia dizer-vos o que significaram para mim todas as conversas com as pessoas que vieram, se sentaram numa cadeira no meio de um cenário amarelo e confiaram em mim. Mas decerto teremos muito tempo para falar sobre isso.

Hoje um telefonema que não era de trabalho, que era de apoio e suporte profissional, mostrou-me que sim, vale a pena superar o que está estabelecido, que vale a pena sentar-me à mesa com gente que talvez não perceba o que estou a explicar mas que me deu a oportunidade de fazer, que confiou no meu discernimento, às cegas. Que vale a pena tentarmos escapar do que esperam de nós.

 

Professora mas pouco: o que aprendi depois de um semestre

Em 2018 aceitei uma proposta que me deixava desconfortável. Não por ser uma má proposta ou sequer por ser obrigatória. Aceitei-a para sair da minha zona de conforto e compreender se a minha aversão à ideia era um preconceito infundado ou um receio real.

“Hey, gostava de te convidar para vires dar aulas.”

Nunca me considerei especialista fosse no que fosse. Estudei para isso, reuni conhecimento de outros que chegaram e fizeram antes de mim. Mas, sobretudo, testei muitas coisas, nunca hesitei em experimentar teorias que desenvolvia na minha imaginação, sem olhar a consequências nefastas, confiante de que o pior que podia acontecer era falhar redondamente e começar no preciso ponto em que o bom caminho se separara da minha ideia.

É preciso que o confesse: nunca tive paciência para ensinar. Não é um talento que me assista e, quando o faço, sinto-me condescendente, mesmo que não o seja.
“Não há nada que eu possa ensinar que qualquer um não possa procurar por si mesmo”, pensava eu. E continuo a pensar o mesmo.

No entanto, ir dar aulas trouxe-me uma visão inesperada do ensino, dos professores e dos alunos. Pôs-me em contacto com uma frustração que desconhecia: a indiferença dos que assistiam. Sem maldade, apenas uma indiferença atenta e silenciosa, sem suspiros de enfado ou conversas marginais, uma indiferença velada e não-opinativa, sem espírito crítico, sem respostas para me dar porque sem considerações dentro ou fora da sala de aula.

É neste momento em que a minha Joana otimista gosta de pensar que talvez não me tenham falado dentro daquelas paredes, por vergonha ou achando que as respostas estariam erradas. Talvez não soubessem ao certo o que perguntar. Talvez nunca tivessem pensado naquilo e eu lhes tenha conseguido plantar algo de diferente no espírito. Mas não havia respostas erradas, havia análises simples de algo que lhes é tão familiar: as redes sociais. Que pode haver de tão complexo que os deixasse tão assoberbados com as minhas perguntas right to the point?

Tinham entre os 18 e os 27 anos. Os mais novos, acabados de sair do secundário, do ensino geral ou de cursos técnico-profissionais, alguns dos mais velhos já com licenciaturas na bagagem. No dia em que nos conhecemos, garantiram-me que estavam ali porque queriam “uma profissão do futuro”, porque queriam “ter um trabalho estável”.
Quebrei-lhes os sonhos nesse primeiro dia. Nada é estável na área do digital; nem o assunto que desenvolvemos nem o salário que nos pagam. Contei-lhes que é uma área em constante renovação, que deviam ler sobre ela todos os dias, para se manterem a par, para não ficarem para trás. Quis passar-lhes, em todas as aulas, que nada do que dizia era imutável e final, que a internet é um mundo de possibilidades infinitas para aprender, que o cerne de quem trabalha no online é a constante ânsia de chamar a atenção de todos os outros que por aqui navegam em lazer.
Eles abanaram-me a cabeça de todas as vezes, mas acho que não processaram o que quis passar-lhes…

Partilhei com eles as ferramentas que uso para adicionar interesse ao meu trabalho. Essas que me custaram tanto a encontrar. Achei que dar-lhas lhes apimentaria a criatividade. Pedi-lhes que olhassem para os sites com os seus olhos de ver, que me contassem as suas histórias (quaisquer que fossem, o que quisessem!) nas stories do Instagram.
Tive direito a surpresas que me deixaram muito feliz. Histórias bem contadas e trabalhos formatados com serenidade e empenho. Infelizmente, numa turma de 23, consigo dizer-vos exatamente quais os que se dedicaram e talvez me caibam numa mão.

Não ensinei nada que qualquer um não pudesse procurar por si mesmo. Mas é preciso querer procurar!

Os alunos não sabem, mas eles têm o condão de mudar o estado de espírito de um professor. Eles podem ensinar quem passou horas a preparar as aulas sobre a realidade que os enquadra todos os dias. Podem partilhar novidades, podem fazê-los rir. Podem contar coisas de uma idade que já escapou a quem ensina, podem pô-los em contacto com o que está na berra, com o que lhes interessa, com o que preferem, o que detestam e o que os comove.
Os alunos têm um grande poder para o bem. E usam-no pouco.
Sei que todos fomos esses alunos num dia ou noutro, quando a inércia tomava conta de nós e era tão bom irmos para uma aula de forma passiva, quando ficávamos só lá sentados, a ouvir, às vezes sem pensar sobre o que ouvíamos.
Mas eu não sabia o quanto é que tudo isto poderia influenciar um professor…

Contaram-me os professores que, às vezes, há turmas incríveis com elementos com boas energias que alavancam um grupo inteiro. Outras vezes, os professores acabam a depositar as expectativas todas num ou noutro mais atento, com mais ambição ou mais talento.
Ser professor é um trabalho de vocação. Hoje não tenho quaisquer dúvidas disso. É também um trabalho de persistência, de compaixão, de paciência, que pede muita energia e muito otimismo. Ou muita capacidade de resistência à frustração ou muita alegria por passar a mensagem certa a pessoas que ainda estão a criar as suas próprias opiniões.

Tive na vida professores incríveis que nunca desistiram. Que se aplicaram nas aulas, que me fizeram gostar mais de matemática sem esquecerem o rigor, que me fizeram inscrever em mais um ano de filosofia mesmo que saísse de lá irritada, só porque me davam a oportunidade de falar e pensar por mim, mesmo que estivesse absurdamente errada. Tive professores inesquecíveis que me sorriam quando tinha boas notas, que me chamavam diretamente nas aulas para ouvirem o que tinha para dizer.
Não sabia que isto tinha sido tão importante para mim até estar do outro lado, a olhar para tantas caras que escolheram estar ali.

Estudar é uma escolha, a partir de certa altura. Deve ser uma vontade e não uma obrigação. Deve ser uma busca pelo nosso talento e não uma coisa chata que os pais nos pagam sem que o queiramos. Deve ser um passo útil para um fim decidido.

Descobri com esta experiência de um semestre que tenho esta vontade de comunicar para quem quer ouvir, perguntar e saber mais. Que o espírito crítico é afinal tão mais importante para mim do que pensava.

E até descobri que afinal as pessoas passam tanto tempo no online, agarradas às redes sociais e que, no entanto, não estão a refletir sobre nada do que lhes é oferecido ou pensado para elas. Que talvez o scroll seja um tique das mãos e não uma busca incessante pelo que lhes falta ou pelo que lhes interessa.

Aos meus alunos do ISEC Lisboa, obrigada aos que participaram, aos que se empenharam, aos que me perguntaram coisas, que duvidaram de outras. Aos que foram às aulas porque gostavam do que ia ensinando, mesmo que tivessem ficado calados de todas as vezes.

A todos os que leiam isto: a curiosidade e a coragem são o que faz o mundo andar. Não as deixem ficar para trás.

Next step: os rótulos não são o demónio

Os últimos dois dias têm sido inacreditáveis. Ando por todo o lado a sentir-me uma espécie de super-herói cujo único poder é guardar uma série de segredos incríveis.

Nunca pensei que houvesse tanta gente disposta a expor-se para contribuir para mudar algo. Que quisesse contar aos outros o que lhe fizeram, o que lhe fazem e o que não admite que continuem a fazer-lhe. 🙏

O preconceito não se associa a um só rótulo. Somos julgados e condenados por vários ao mesmo tempo. Fechamo-nos em tribos por conforto.

Os rótulos não são maus. O mau é o que os que não nos querem bem fazem com eles.

“Que projeto é este? Que moldes terá?”

O objetivo é conceder poder a quem é rotulado por maldade ou por ignorância. É alhearmo-nos da perversidade dos outros e tomarmos as rédeas daquilo que nos chamam com malícia. Um grande ‘fuck you, this is me’, no fundo. Ou, sendo mais formal, uma tomada de força, um assumir do que se é sem olhar a represálias (porque essas já são o ponto de partida de tudo isto, não é verdade? Portanto… o que há a perder?).

As entrevistas serão gravadas em áudio e vídeo. Incluem câmaras mas também incluem algo não metálico: eu! 🙂 Que servirei essencialmente para conversar com os protagonistas. (My favorite thing!)
Trabalho na RTP e estarão associadas às plataformas da empresa.

Tudo o resto partilharei convosco a seu tempo.

“Para que serve este projeto?”

Existe preconceito em todos nós. Até nos mais liberais, nos que vivem em contacto só com a natureza e nos de mente aberta. O preconceito é o desconforto perante o outro. É o não saber lidar com a realidade do outro.

Às caras que se apresentarão cabe a honrosa responsabilidade de fazer ver aos outros sobre a sua realidade. A quem assista, a capacidade de ponderar algo que pode ou não alguma vez ter-lhe passado pela cabeça.
O objetivo é ficarmos mais conectados. Nem todos os preconceitos sairão do nosso ADN (mas se conseguirem, bravo!, e quero conhecer-vos) mas ganhar sensibilidade sobre algo com o qual não nos identificamos pode tornar-nos infinitamente mais serenos com tudo o que não compreendemos. Não?

“Já me inscrevi. E agora?”

Estou a reler todas as histórias que me foram chegando.

Obrigada a todos os que me escreveram e que se disponibilizaram a contar histórias incríveis. Tenho andado os últimos dois dias de lágrimas nos olhos (das boas!). A vossa confiança é comovente e inspiradora!

Vou selecionar algumas histórias e serão contactados por e-mail para que possa saber mais sobre cada um. É preciso alguma seleção dado que me chegaram muito mais histórias do que estava à espera ❤️ Mas não ficarão sem resposta!

Por fim, um obrigada a todos os que, não tendo histórias para contar ou preferindo guardar as suas para a esfera privada, me contactaram pelo Facebook, pelo Instagram e pelo Twitter para me deixar uma palavra ou uma nota de disponibilidade para ajudar. É bom saber que há por aí muito boa gente com o mesmo sentimento!

Até já!

PROCURA-SE: pessoas anti-preconceito que não se importem de falar sobre isso

Temos a sorte de ter nascido na Europa. The Old Continent alberga os descendentes de grandes pensadores, filósofos, gente de garra que lutou pela intelectualidade e pela força para mudar as coisas. Temos também a sorte de vivermos aqui neste canto perfeitamente pacato, o Portugal dos Pequeninos, carregado de boa gente, gente simples e inovadora, gente valente que trabalha com afinco ou que se encosta quando faz mais calor.

Termos sorte não significa que as coisas não precisem de ser conversadas. E a questão do preconceito é um tema que insiste em regressar como um pop-up à minha cabeça. Não porque o integre sem descanso no meu rol infindável e imparável de pensamentos, mas porque me aparece todos os dias pelas histórias dos outros. E isso não me dá descanso.

O preconceito está tão enraizado na forma como nos moldam para este encaixe de sociedade que chegamos a ignorar que os pré-conceitos nos limitam na liberdade de criar, sentir e lutar.

Por isso tive uma ideia. 

PROCURA-SE: 

  • Bons comunicadores que não tenham medo/receio/pudor/vergonha/repulsa em contar na primeira pessoa a SUA própria história sobre preconceito
  • Gente que não se importe de ser gravada e de conversar comigo 🙂
  • Pessoas de coração aberto

A minha noção de preconceito sobre este ou aquele assunto pode estar totalmente errada. Eu também sou preconceituosa! Por isso quero contar com pessoas que saibam explicar-me qualquer história que tenham tanto pelo lado mais introspetivo como pelo lado mais bem-disposto.

E quando penso em preconceito estou a falar de um espectro amplo de ideias pré-concebidas. A cor da pele, uma religião menos enraizada na nossa sociedade, a orientação sexual são temas que nos vêm imediatamente à cabeça, mas há muitos mais. As profissões que desempenhamos, a forma como amamos, como comemos, como nos mexemos, como superamos obstáculos, como nos ajudamos… Quero conhecer tudo isso. E quero que consigamos explicar, finalmente!, uns aos outros as coisas que são verdade sobre os preconceitos que os outros têm sobre nós e as que são absolutamente surreais! 

Seguem alguns exemplos de pessoas que gostava de conhecer (e perdoem-me se os rótulos são eles próprios um preconceito terrível; no caso, serve só para tentar explicar melhor a minha ideia):

  • Feminista
  • Machista
  • Gender Fluid
  • Poliamoros@
  • “Gord@”
  • “Magr@”
  • Suicide Girl
  • Gender Queer
  • Vegan
  • Padre
  • Evangélico
  • Idos@
  • Monge
  • Transgénero
  • Invisual
  • Vegetariano
  • Adepto de claque de futebol
  • Surd@
  • Drag Queen
  • Muçulman@
  • Gay
  • Lésbica
  • Ex-vítima de violência doméstica
  • Pessoa com psoríase
  • Pessoa depressiva
  • Autista
  • Testemunhas de Jeová
  • Pansexual
  • Casais com grande diferença de idade
  • Casais inter-raciais
  • Transexual
  • Agente funerário
  • Taxidermista
  • … todos os outros!

 

Aceito de bom grado as vossas sugestões e estou aberta a qualquer conversa sobre o assunto.

Para que possa conhecer-vos, peço-vos que preencham este formulário (ao qual só eu terei acesso). Lets take it from there 🙂

Passem a mensagem, partilhem com os vossos amigos, por aqui, nas redes sociais todas de que se lembrem, nas conversas na praia, nos lanches no café, nas tardes de esplanada.

Obrigada a todos!

os YouTubers não têm medo do ridículo

São os novos ídolos dos miúdos e não importa o que partilhem porque não é isso que (mais) interessa. O maior valor de cada vídeo é a personalidade de cada um, que pelo caminho conquistou legiões de fãs descomplexados acerca da intelectualidade. Que procuram algo que os entretenha e que pode ter, ou não, uma mensagem maior.

Seremos os maiores mentirosos se dissermos que somos demasiado profundos para assistir ao que os YouTubers vão partilhando. Como em tudo, não é possível que gostemos deles todos, que nos identifiquemos com o tema, com a forma de falar, com a educação ou com as piadas. Como na gastronomia, é preciso que experimentemos para nos irmos apercebendo de gostos que nem sonhávamos.

Os YouTubers não são só miúdos a pregar partidas ou a dizer palavrões. Há uns, vloggers, que partilham todas as partes de um dia-a-dia que consideraríamos banal mas que encantam os miúdos que ainda não têm liberdade. Há os que têm mensagens importantes sobre conquista de objetivos, compreensão do outro, a descoberta da identidade. Há os que fazem tutoriais de maquilhagem, demoradíssimos mas oferecidos em fast-forward para ajudar os que se sentem mais bonitos por baixo de bases e sombras. Há os que viajam e nos fazem invejar todos os sítios por onde passam, mesmo que nem gostássemos particularmente de conhecer aquele lugar. Os que comentam carros, os que fazem unboxings. Os gamers, pagos para fazer o que sabem melhor.

O que nos distingue dos Youtubers é que eles não têm medo do ridículo. Não é isso que os impede, não é essa insegurança que os trava. Comentamo-los como se fossem herdeiros do nada, da falta de objetivos, ignorantes das verdadeiras profissões. Somos, nós, herdeiros paulatinos do ceticismo, da incapacidade de compreender que sempre quisemos que alguém nos entretesse de tempos a tempos e que esta também é, sim, uma forma de entretenimento.

Comparemos o rock e o punk que ouvíamos durante a adolescência às reações das mães que nos batiam à porta do quarto, “que isso é só barulho!”. A incompreensão da altura é a incompreensão dos miúdos de agora. Que importa se o conteúdo não tem mensagem; às vezes só precisamos de um barulho familiar.

Somos muito mais conscientes de nós próprios conforme vamos crescendo. E é isso que nos inibe. Guardamos o que sonhamos numa caixa para que ninguém nos ache ridículos, não vá esse alguém julgar-nos, multar-nos a criatividade e estragar-nos a vontade para sempre.

Somos ridículos por isso.

Nunca se ouviu falar de ninguém que não tivesse sido ridículo na vida. E nessa altura nem havia internet.

E se falo sobre isso, é preciso que dê o exemplo:

Tenho uma página de Tumblr onde partilho as fotos bonitas que vou tirando. Vejam. E comentem, se quiserem.

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