Next step: os rótulos não são o demónio

Os últimos dois dias têm sido inacreditáveis. Ando por todo o lado a sentir-me uma espécie de super-herói cujo único poder é guardar uma série de segredos incríveis.

Nunca pensei que houvesse tanta gente disposta a expor-se para contribuir para mudar algo. Que quisesse contar aos outros o que lhe fizeram, o que lhe fazem e o que não admite que continuem a fazer-lhe. 🙏

O preconceito não se associa a um só rótulo. Somos julgados e condenados por vários ao mesmo tempo. Fechamo-nos em tribos por conforto.

Os rótulos não são maus. O mau é o que os que não nos querem bem fazem com eles.

“Que projeto é este? Que moldes terá?”

O objetivo é conceder poder a quem é rotulado por maldade ou por ignorância. É alhearmo-nos da perversidade dos outros e tomarmos as rédeas daquilo que nos chamam com malícia. Um grande ‘fuck you, this is me’, no fundo. Ou, sendo mais formal, uma tomada de força, um assumir do que se é sem olhar a represálias (porque essas já são o ponto de partida de tudo isto, não é verdade? Portanto… o que há a perder?).

As entrevistas serão gravadas em áudio e vídeo. Incluem câmaras mas também incluem algo não metálico: eu! 🙂 Que servirei essencialmente para conversar com os protagonistas. (My favorite thing!)
Trabalho na RTP e estarão associadas às plataformas da empresa.

Tudo o resto partilharei convosco a seu tempo.

“Para que serve este projeto?”

Existe preconceito em todos nós. Até nos mais liberais, nos que vivem em contacto só com a natureza e nos de mente aberta. O preconceito é o desconforto perante o outro. É o não saber lidar com a realidade do outro.

Às caras que se apresentarão cabe a honrosa responsabilidade de fazer ver aos outros sobre a sua realidade. A quem assista, a capacidade de ponderar algo que pode ou não alguma vez ter-lhe passado pela cabeça.
O objetivo é ficarmos mais conectados. Nem todos os preconceitos sairão do nosso ADN (mas se conseguirem, bravo!, e quero conhecer-vos) mas ganhar sensibilidade sobre algo com o qual não nos identificamos pode tornar-nos infinitamente mais serenos com tudo o que não compreendemos. Não?

“Já me inscrevi. E agora?”

Estou a reler todas as histórias que me foram chegando.

Obrigada a todos os que me escreveram e que se disponibilizaram a contar histórias incríveis. Tenho andado os últimos dois dias de lágrimas nos olhos (das boas!). A vossa confiança é comovente e inspiradora!

Vou selecionar algumas histórias e serão contactados por e-mail para que possa saber mais sobre cada um. É preciso alguma seleção dado que me chegaram muito mais histórias do que estava à espera ❤️ Mas não ficarão sem resposta!

Por fim, um obrigada a todos os que, não tendo histórias para contar ou preferindo guardar as suas para a esfera privada, me contactaram pelo Facebook, pelo Instagram e pelo Twitter para me deixar uma palavra ou uma nota de disponibilidade para ajudar. É bom saber que há por aí muito boa gente com o mesmo sentimento!

Até já!

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PROCURA-SE: pessoas anti-preconceito que não se importem de falar sobre isso

Temos a sorte de ter nascido na Europa. The Old Continent alberga os descendentes de grandes pensadores, filósofos, gente de garra que lutou pela intelectualidade e pela força para mudar as coisas. Temos também a sorte de vivermos aqui neste canto perfeitamente pacato, o Portugal dos Pequeninos, carregado de boa gente, gente simples e inovadora, gente valente que trabalha com afinco ou que se encosta quando faz mais calor.

Termos sorte não significa que as coisas não precisem de ser conversadas. E a questão do preconceito é um tema que insiste em regressar como um pop-up à minha cabeça. Não porque o integre sem descanso no meu rol infindável e imparável de pensamentos, mas porque me aparece todos os dias pelas histórias dos outros. E isso não me dá descanso.

O preconceito está tão enraizado na forma como nos moldam para este encaixe de sociedade que chegamos a ignorar que os pré-conceitos nos limitam na liberdade de criar, sentir e lutar.

Por isso tive uma ideia. 

PROCURA-SE: 

  • Bons comunicadores que não tenham medo/receio/pudor/vergonha/repulsa em contar na primeira pessoa a SUA própria história sobre preconceito
  • Gente que não se importe de ser gravada e de conversar comigo 🙂
  • Pessoas de coração aberto

A minha noção de preconceito sobre este ou aquele assunto pode estar totalmente errada. Eu também sou preconceituosa! Por isso quero contar com pessoas que saibam explicar-me qualquer história que tenham tanto pelo lado mais introspetivo como pelo lado mais bem-disposto.

E quando penso em preconceito estou a falar de um espectro amplo de ideias pré-concebidas. A cor da pele, uma religião menos enraizada na nossa sociedade, a orientação sexual são temas que nos vêm imediatamente à cabeça, mas há muitos mais. As profissões que desempenhamos, a forma como amamos, como comemos, como nos mexemos, como superamos obstáculos, como nos ajudamos… Quero conhecer tudo isso. E quero que consigamos explicar, finalmente!, uns aos outros as coisas que são verdade sobre os preconceitos que os outros têm sobre nós e as que são absolutamente surreais! 

Seguem alguns exemplos de pessoas que gostava de conhecer (e perdoem-me se os rótulos são eles próprios um preconceito terrível; no caso, serve só para tentar explicar melhor a minha ideia):

  • Feminista
  • Machista
  • Gender Fluid
  • Poliamoros@
  • “Gord@”
  • “Magr@”
  • Suicide Girl
  • Gender Queer
  • Vegan
  • Padre
  • Evangélico
  • Idos@
  • Monge
  • Transgénero
  • Invisual
  • Vegetariano
  • Adepto de claque de futebol
  • Surd@
  • Drag Queen
  • Muçulman@
  • Gay
  • Lésbica
  • Ex-vítima de violência doméstica
  • Pessoa com psoríase
  • Pessoa depressiva
  • Autista
  • Testemunhas de Jeová
  • Pansexual
  • Casais com grande diferença de idade
  • Casais inter-raciais
  • Transexual
  • Agente funerário
  • Taxidermista
  • … todos os outros!

 

Aceito de bom grado as vossas sugestões e estou aberta a qualquer conversa sobre o assunto.

Para que possa conhecer-vos, peço-vos que preencham este formulário (ao qual só eu terei acesso). Lets take it from there 🙂

Passem a mensagem, partilhem com os vossos amigos, por aqui, nas redes sociais todas de que se lembrem, nas conversas na praia, nos lanches no café, nas tardes de esplanada.

Obrigada a todos!

os YouTubers não têm medo do ridículo

São os novos ídolos dos miúdos e não importa o que partilhem porque não é isso que (mais) interessa. O maior valor de cada vídeo é a personalidade de cada um, que pelo caminho conquistou legiões de fãs descomplexados acerca da intelectualidade. Que procuram algo que os entretenha e que pode ter, ou não, uma mensagem maior.

Seremos os maiores mentirosos se dissermos que somos demasiado profundos para assistir ao que os YouTubers vão partilhando. Como em tudo, não é possível que gostemos deles todos, que nos identifiquemos com o tema, com a forma de falar, com a educação ou com as piadas. Como na gastronomia, é preciso que experimentemos para nos irmos apercebendo de gostos que nem sonhávamos.

Os YouTubers não são só miúdos a pregar partidas ou a dizer palavrões. Há uns, vloggers, que partilham todas as partes de um dia-a-dia que consideraríamos banal mas que encantam os miúdos que ainda não têm liberdade. Há os que têm mensagens importantes sobre conquista de objetivos, compreensão do outro, a descoberta da identidade. Há os que fazem tutoriais de maquilhagem, demoradíssimos mas oferecidos em fast-forward para ajudar os que se sentem mais bonitos por baixo de bases e sombras. Há os que viajam e nos fazem invejar todos os sítios por onde passam, mesmo que nem gostássemos particularmente de conhecer aquele lugar. Os que comentam carros, os que fazem unboxings. Os gamers, pagos para fazer o que sabem melhor.

O que nos distingue dos Youtubers é que eles não têm medo do ridículo. Não é isso que os impede, não é essa insegurança que os trava. Comentamo-los como se fossem herdeiros do nada, da falta de objetivos, ignorantes das verdadeiras profissões. Somos, nós, herdeiros paulatinos do ceticismo, da incapacidade de compreender que sempre quisemos que alguém nos entretesse de tempos a tempos e que esta também é, sim, uma forma de entretenimento.

Comparemos o rock e o punk que ouvíamos durante a adolescência às reações das mães que nos batiam à porta do quarto, “que isso é só barulho!”. A incompreensão da altura é a incompreensão dos miúdos de agora. Que importa se o conteúdo não tem mensagem; às vezes só precisamos de um barulho familiar.

Somos muito mais conscientes de nós próprios conforme vamos crescendo. E é isso que nos inibe. Guardamos o que sonhamos numa caixa para que ninguém nos ache ridículos, não vá esse alguém julgar-nos, multar-nos a criatividade e estragar-nos a vontade para sempre.

Somos ridículos por isso.

Nunca se ouviu falar de ninguém que não tivesse sido ridículo na vida. E nessa altura nem havia internet.

E se falo sobre isso, é preciso que dê o exemplo:

Tenho uma página de Tumblr onde partilho as fotos bonitas que vou tirando. Vejam. E comentem, se quiserem.

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Roadtripping

The Handmaid’s Tale: fortíssimo, importantíssimo

The Handmaid’s Tale, diziam-me, tens de ver. Vais gostar, diziam-me.

Falaram-me de uma sociedade de mulheres subjugadas, não aos homens, mas ao Deus dos homens, servas férteis, capazes de resolverem um castigo divino. A favor dos Homens.
Não sabia ao certo ao que ia, na verdade. Sabia que o “eu gostar” me daria certamente a volta aos fígados. Mas não estava preparada para a escuridão daqueles quartos, daquelas mulheres e da realidade – de hoje e não de um passado medieval – que lhes concederam.
The Handmaid’s Tale é a história de mulheres escolhidas pelo sistema para se tornarem parideiras de serviço. Chamam-lhes servas e não têm direito a mais do que um nome de pertença – Offred, no caso da protagonista. Of Fred. De Fred, o dono a que foi alocada, o Comandante que a violará enquanto ela se fica, quieta, calada, contando os minutos para o fim, desejando que na barriga se lhe crie um bebé para que possa ser mais bem cuidada.
A realidade que nos é mostrada é de outro mundo, mas é deste tempo. É ficção, uma distopia exasperante que me esmagou o coração, que ainda só vai no quarto episódio do quanto me pode chocar. É o que me dizem. Eu já me sinto chocada o suficiente. E no entanto há algo em mim, de negro e desesperado, que quer ver o resto, como se pudesse avaliar do pessimismo e otimismo de uma realidade que não existe, que nunca chegará por cá. Se quisermos acreditar com muita força nisso.
E as mulheres inférteis desses Comandantes, piores do que eles, violadoras atentas da dignidade de outras mulheres que têm um útero melhor do que o delas. Detestadas, insultadas, destratadas e guardadas para parir sem parar, sem um pio, sem uma palavra, sem uma consideração maior.
Que coisa horrível que ali existe. Que realidade do terror. Como é que se consegue imaginar uma história destas?

Mulheres que por o serem são primeiro dispensadas do trabalho, privadas do dinheiro do trabalho que tinham, tornadas propriedade dos seus homens e depois dos homens ricos das outras. Mulheres-objeto. À vista de todos. Sem escolha e sem sorte.
Continuo chocada. E sonhei com isto.
É assim tão impossível que tudo isto pudesse acontecer? Com homens como Donald J. Trump e Vladimir Putin no poder? Tenho mais fé em tribos africanas, aborígenes sem Deus do que nesses países tão cheios de leis aprovadas por maiorias de homens e mulheres cínicos, desconectados da realidade, privilegiados e despeitados.
Quem ensinou a mulher a acreditar que é um ser menor? Quando é que nos ensinaram com tanto sucesso que somos menores por termos menos força braçal, que somos mais usáveis, descartáveis, condenáveis, desautorizáveis? Porque é que somos histéricas quando lutamos, eles fortes e focados, porque é que não somos decididas mas antes obcecadas?
Porque é que somos tudo o que é mau e ridículo e porque é que eles são tudo o que puderem ser?
O feminismo continua a ser importante porque, por mais anos, religiões, sociedades que se criem e se crêem evoluídas, continuam a dar-nos tudo às migalhas, como quem nos faz o favor de nos conceder o desconto dos malucos.

Faltam-me muitos episódios. Mas queria só partilhar. Vejam.

HandmaidsTail

Doutores e Engenheiros, para que vos quero?

Entrei para a RTP em junho de 2010, estagiária de função, responsável por escrever os textos que acompanhavam cada elemento de programação da RTP1 e RTP2.
Era na verdade demasiado rápida e acabava uma semana inteira de trabalho em dois dias. Foi assim que vim parar às redes sociais e, pela ordem natural das coisas deste género, à Multimédia.

Nunca percebi as ‘estruturas’ e as ‘hierarquias’ que por aqui se arrumam. Não por não estarem bem explicadas; mais porque nunca soube lidar com títulos, ‘doutores’ e ‘engenheiros’, ‘diretores’ e cargos afins. Compreendo os cargos, não compreendo as nomenclaturas. Também nunca fui boa a sentir-me inibida ou proibida de falar com quem quero por não ter intermediário.

Minto: até aos 6 anos foi o meu primo que pediu tudo no café por mim, fossem copos de água ou bolos com creme; passou-me quando percebi que não tinha tempo a perder.

Hoje sei, melhor do que há oito anos, que há cargos que, quando bem ocupados, conseguem mudar o mundo que lhe deram para as mãos. Não pelo ‘doutor’ que se lhes precede, mas pela pessoa que levam dentro.
Ao contrário do que a sociedade nos incute, não são as nomenclaturas a fazer a diferença no nosso respeito e devoção, numa conversa, numa discussão. Não deviam ser. Porque o que faz a diferença no dia-a-dia são as pessoas que não se importam que o título não se lhes vá agarrado, cujo foco é o que fazem com paixão, com vocação.

Essas são as minhas pessoas preferidas, desculpem-me que vo-lo diga. E foram também das que melhor me orientaram, se posso ser muito franca.

Parece-me deveras provinciano – e isto nada tem a ver com a província propriamente dita – que se respeite mais alguém por vir associado a um cargo. Parece-me ridículo que se oiçam mais as ideias de um presidente e de um diretor engravatados quando os zilionários (como o Mark Zuckerberg) usam sweats todos os dias e têm desenvolvido das ideias mais lucrativas das últimas décadas. São CEOs e no entanto duvido que alguém os trate por CEO Zuck todos os dias. Ainda nos falta recuperar desse estigma português dos doutores e engenheiros do antigamente.

Tenho sempre fé na mudança. Que o que chega vem melhor do que o que acabou de partir. Mesmo quando o que parte já foi bom. Sou otimista nessa medida. Mas não consigo deixar de pensar que de cada vez que chega alguém que se quer fazer acompanhar de um título esse título pesará mais do que o bem que traz pelas costas. Só porque o foco não está onde devia, só porque o trabalho vem depois do cargo; e isso desmotiva. Isso é o que faz com que o que chegue venha do passado e que não queira caminhar pelo presente como devia.

De alguma forma o que aí vem acarta um bom pronúncio. Encho-me novamente de otimismo. Porque se não nos enchermos de otimismo paramos e parar não é uma opção.

Aparecer na televisão.

Estar lá, ter a nossa cara em grande plano, um microfone na mão, maquilhagem colada às bochechas e aos olhos, um sorriso grande e disponível.

É curioso como aparecer lá, num quadro tão pequeno, ainda seja para tantos mais do que esperava uma conclusão boa de que finalmente atingimos um objetivo maior, de que somos reconhecidos, finalmente reconhecidos, de que os nossos propósitos profissionais enfim se cumpriram.

Deixem-me quebrar-vos os sonhos: é possível que não seja assim.

Aparecer na televisão não é o reconhecimento, é um convite. É ser capaz de articular uma história que vale a pena contar nesse bocadinho de tempo, que tem relevância pelo tempo curto em que existe. Não é uma conclusão de sucesso, não é um sinal de achievement.

Antes, muito antes, há uns 30 anos antes, aparecer só cabia na vida dos artistas. Iam atuar à televisão. Que momento histórico, que concretização irrepetível! Tinham hora marcada, sem cachet, para se promoverem, para chegarem cada vez mais longe, àqueles que viviam fora das grandes cidades, no silêncio do campo, à beira-mar.

Hoje já não é assim.

Não somos artistas, não nos promovemos. Aparecemos lá. Ponto.
Contamos uma história, pequena, que se perde no meio de mil e um outros conteúdos, quase todos voláteis, muitos esquecíveis. A televisão já não tem hora marcada, é contínua. O tempo de antena é demasiado; é cheio, não é recheado.
Falamos rápido porque é curto, o tempo, mas é distendido, o tempo. É preciso ritmo, é preciso mostrar muita coisa ao mesmo tempo, sobretudo muito mais a tempo do que todos os outros.

Aparecer não é ser eterno. Não é a oportunidade. Não é ter chegado ao fim.

 

 

Selfie Journalism: a verdade que não se esconde

Faço parte de uma geração que procura a (sua) verdade das coisas, incessantemente e curiosamente. Sou também, e gloriosamente, do tempo em que todos podem ter acesso a informação imediata, atualizada ao minuto, por profissionais de excelência e por profissionais do clickbait e do sensacionalismo. Andamos todos em busca do Vale Encantado da informação desprovida de artifícios, aquela do imediato, sem filtro e sem subterfúgios. Partilhamo-la antes de a confirmarmos porque nos parece melhor uma informação errada do que informação nenhuma.

É claro para mim que o jornalismo como o conhecemos mudou e que as pressões por pageviews minam o trabalho de quem outrora perdia mais tempo com investigações. Mas sou otimista: acredito que esta mudança nos está a dar espaço para a criação de um jornalismo de proximidade aberto, novo, real o mais possível.

Chamem-lhe selfie journalism – ou jornalismo-selfie – sem desprimor. Um jornalismo mais perto da realidade do que qualquer outro, reativo, empolado, não-editado e superficial algumas vezes, mas útil e imediato. Feito por pessoas que estão no local, que têm as emoções que o jornalista não pode ter, que não consegue incutir numa peça isenta de considerações mais ou menos óbvias, mas que se querem objetivas.

Este novo jornalismo apresenta-se como uma espécie de one-band man storytelling, apoiado nas redes sociais que nos pedem Histórias todos os dias. O telemóvel – móvel como mais nenhuma ferramenta – já consegue fazer as vezes de câmara, microfone, editor de vídeo, distribuidor de conteúdo. É inegável.
Embora os veteranos possam encarar este modo de fazer notícias como infantil, amador e desrespeitoso para o jornalismo tradicional, é inegável que esta verdade se tornou mais absoluta do que os artigos de fundo sobre famílias envolvidas nos acontecimentos, entrevistas acordadas e imagens editadas. As redes sociais não pedem a organização de outrora, sequer o cuidado estético a que alguns de nós almejamos.

We’re forgiving, we just want a good story.

Ser jornalista sempre contou com os inputs dos protagonistas das histórias que se pretendia contar. Isso não mudou. Mudou o meio através do qual nos chegam essas histórias. Qualquer pessoa pode ser um selfie journalist.
As redes sociais não têm de ser repositórios de fake news e comentários sobre assuntos sem profundidade. Embora consiga entender o quão difícil possa ser ignorar o fogo de artifício que por lá vai, algumas redes devem ser usadas para contar mais e melhores histórias. Chamar a atenção para determinados assuntos, contar na 1.ª pessoa assuntos demasiado graves para serem esquecidos, mas demasiado sensíveis para serem compilados em edições.

Os conteúdos produzidos em telemóvel têm três vezes mais adesão do que o conteúdo produzido por um broadcaster. É mais rápido, mais imediato e, sobretudo, mais direcionado. O público-alvo procura aquilo que quer ver, envolve-se no conteúdo que lhe fala à personalidade e perde-se facilmente em assuntos relacionados.
Se o on-demand ganhou importância e destronou os clubes de vídeo, a busca de fontes próximas tornou-se bastante natural também. Todos temos “aquele-amigo-que-estava-lá-que-conhece-alguém-que”. Acabamos a pegar no telefone e a ligar-lhe, para ouvir de quem confiamos o que realmente aconteceu.

O futuro das notícias passa também pela agregação dos vários pontos de vista, conteúdos criados pelos próprios protagonistas, sem curadoria, sujeitando-se às várias camadas de considerações pessoais sobre um assunto. Daí, quem lê e quem procura junta-se a um lado da barricada que mais lhe fale aos princípios.

As pessoas não querem multicâmara, querem selfie journalism. 

É lógico que a contextualização dos profissionais redatores de notícias é essencial para a compreensão de um tema mais vasto do que o que o imediato propõe. O suspense e o engagement, no entanto, são aditivos e é isso que conduz a que cada vez mais procuremos o que não tem filtro para entender uma história.

É o assunto que importa. Não o meio, não a voz de quem o relata, mas a persona de quem o vive numa pele irrepetível. É esta no fundo a selfie que realmente pode fazer diferença.